Capiba

Uma Caixa de Pregos Para Capiba

Capiba, dentista, uma caixa de pregos.

Tenho umas histórias bem esquisitas no meu passado, e gostaria de contar. Acredito que certas coisas que aconteceram foram tão bizarras que merecem ser expostas, apesar da vergonha própria. A forma como conheci Capiba, compositor pernambucano, é uma delas.
Meu tio Edmo era dentista, e tinha o consultório no centro do Recife, em um edifício que fica na esquina da Avenida Guararapes com a Dantas Barreto. A minha família é bem tradicional, muito antiga, e eu fui tipo filha atrasada. Nasci após 20 anos de casamento dos meus pais, e os amigos da família eram pessoas de um Recife mais antigo. Capiba era uma destas pessoas. Amigo do grupo de meus tios, que incluiam também Marcos, João e Ariano Suassuna, entre outros.
Eu tinha uns sete anos e fui ao consultório de meu tio para um exame dentário de rotina, e lá estava o mestre compositor de músicas como “É de Amargar”, “Deixa o Homem se Virar”,”O Bela!” ,”Trombone de Prata”... Um senhor baixinho,gordinho e sorridente. Minha mãe me falou que ele era um compositor famoso, e fui conversar com ele por curiosidade. Ele, bem simpático, falou que adorava gatos. E eu gostava de gatos! Com base nestas duas informações,eu tirei a conclusão de que gostava dele e que ele merecia ganhar um presente. Mas eu era uma criança, não tinha dinheiro. Estava num prédio sem flores, estava desprovida de chicletes no momento, que presente eu iria dar? Quebrei a cabeça pensando. Não podia ser um presente qualquer, tinha de ser algo especial, à altura do "homenageado".
Pedi à minha mãe para ir dar uma volta, ela concordou. E aí, fui procurar o presente ideal.

Procurando o presente

O consultório de dentista do meu tio funcionava em um conjunto de lojas comerciais, e enquanto eu esperava para ser atendida (medo...), ficava andando e fuçando em tudo. Inclusive meu pai costumava dizer que , de tanto xeretar, um dia iriam colocar um algodão com clorofórmio no meu nariz, eu iria dormir. Acordar deitada numa cama, com um homem mau preparando, amolando já a faca para arrancar meus órgãos. Eu argumentava que preferia acordar só depois, já morta. Por que eu tinha de acordar justo um pouco antes do homem me cortar e tirar as tripas fora? Meu pai não contra argumentava isso.

Eu costumava xeretar todas as lojas, toda vez que ia ao dentista, e fiz amizade com todo mundo no andar do consultório, inclusive o dono de uma sapataria, louro de cabelos compridos, chamado Galego. Era uma sapataria artesanal, onde os sapatos eram feitos e consertados. Depois de procurar em outros lugares,sem encontrar algo satisfatório, fui até Galego. Expliquei a situação para ele: Queria dar um presente para Capiba e estava sem verba para isto. Será que ele não teria algo ali, na sapataria, que pudesse me dar?

Galego pensou,pensou e disse: “Olha, Roberta, só tenho aqui uma caixa de prego de sapato”. E eu: “Perfeito! Me dá?”

Ele até embrulhou em papel pardo, amarrou com barbante, que presentão Capiba iria receber (aham).

Cheguei de volta e Capiba ainda estava esperando ser atendido por meu tio. Então dei a ele o melhor presente do mundo, aquela caixa de prego. Espero que ele tenha precisado de prego um dia, e lembrado de como aquilo foi útil. Afinal, é sempre bom ter um prego de sapato em casa, para alguma coisa na qual não consigo pensar agora.

 

Ouça mais da obra de Capiba AQUI.

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