Medo, terror e literatura: A Presença dela – Livro 1 – SOMBRAS DO RECIFE

A PRESENÇA DELA

Medo, suspense e romance no livro que tem as assombrações do Recife como pano de fundo assombrado !

Conheça Lorena, e descubra todo o terror e medo de Sombras do Recife

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SOMBRAS DO RECIFE

A PRESENÇA DELA

Capítulo 1

 Beatriz

    Medo. Nunca senti tanto medo na vida. Difícil respirar, difícil respirar. Um puxão forte em meus cabelos me faz arfar, e volto meus olhos para a frente, para aquele que eu amo. O desespero em sua expressão não consegue modificar a beleza de seu rosto, seus olhos, cabelos macios ondulados, e mesmo as lágrimas de medo, raiva e impotência apenas o tornam mais atraente.

    Ele luta contra dois homens fortes que o seguram, tenta se soltar, me alcançar, tudo em vão. Eu, por minha vez, também vou ao encontro dele, e por alguns segundos consigo  tocar na lapela de sua camisa. Me agarro a ele.

      - Perdoe-me, meu querido, é tudo minha culpa. Eu sinto tanto, tanto!

   No meio daquilo tudo, ele conseguiu sorrir, os olhos dentro dos meus. Para mim, naquele momento, apenas existiam aqueles olhos de um verde profundo, aquele sorriso franco, eu o amei mais ainda pela tentativa de me tranquilizar, amei como ele se recompôs para me deixar segura. Pelo menos naqueles poucos momentos.

      - Calma, tudo vai acabar bem, vamos conseguir sair disso, eu prometo, eu...

   Outro puxão em meus cabelos me faz gritar. Eu havia me esquecido que estava também prisioneira. Tentei olhar para meu captor, mas não consegui.

      - Realmente acreditam que vão sair vivos desta? Vocês, que arrastaram o meu nome na lama?

   O medo tomou novamente seu lugar de honra. O homem que me segurava pelos cabelos daquela forma rude e cruel era o meu pai. O “Homem Terrível”, como eu o chamava mentalmente. Estava realmente apavorada naquele momento, pois bem sabia do que meu pai era capaz.

   Ele puxou mais uma vez com força, para me colocar ao seu lado, e me vi impulsionada para trás, sem poder me livrar. O meu amado lutava como um louco para se soltar.

    

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  - Olhe só para você, Beatriz. Como ousou fazer o que fez? Se juntar com esse... esse caixeiro sem futuro, sem nome. O que estava pensando? Que eu não descobriria? Que não iria atrás de vocês dois até no inferno?

    Pude enfim ver o rosto de meu pai. Ódio era o que ele transmitia com o olhar, um ódio e uma frieza sem comparação. Eu já testemunhara aquela expressão antes,  aquele tom de crueldade, enquanto ele chicoteava os negros de nossa casa, até a morte. A boca apertada num ricto de fúria de quem mal se controlava para não quebrar logo o brinquedo, e estragar toda a diversão que ainda iria tirar de tudo aquilo.Estávamos perdidos, não haveria perdão.

    Meu amado gritou, deu um puxão mais forte, quase se soltando:

      - Tire suas mãos dela! Beatriz!

   A mão que me pegava pelos cabelos enredou-se nos fios ainda mais , chegando à raiz e me mantendo bem presa, então senti algo sendo enrolado ao redor de meus pulsos. Consegui ver que era o chicote de couro que meu pai usava para castigar os negros. Ele usara a parte de couro das tiras para improvisar uma amarra .

   Só então tomei consciência de que, além dos dois captores de meu adorado e do meu pai, havia mais dois homens, que estavam a um canto, um misturando algo, o outro batendo ruidosamente na parede. Eu sabia que aquele quarto era do meu amado, e que ali nos encontrávamos em segredo. Um quarto simples, com um banheiro e um pequeno armário de parede. Pelo canto dos olhos, vi que os dois homens estavam justamente próximos ao armário. Meu pai sorriu com maldade:

    

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   - Pode gritar a vontade, não tem ninguém mais neste edifício. Eu mesmo me certifiquei disto, e comprei o prédio inteiro.Como podem ver, isto foi planejado a alguns dias, e  temos todo o tempo do mundo pela frente... podem apostar que vou aproveitá-lo bem.

   Amarrou os meus pés, e fiquei sem conseguir me equilibrar direito, caí e machuquei os lábios no chão. Meu pai se aproximou do rapaz cativo, e naquele momento me pareceu uma cobra cercando a presa. O rapaz, no entanto, não parecia ter medo, e se empertigou.

      - E você, seu vendedorzinho de balcão imundo, como teve a coragem de tocar em minha filha? Quem você pensa que é? Ou melhor – ele sorriu com  um olhar insano – quem você pensava que era?

   O jovem se debateu, já cansado. Meu pai pôs a mão sob o queixo dele, obrigando-o a encará-lo.

      - Você vai agora ser levado para longe. Diga adeus à sua querida.

      - Não !! Beatriz, Beatriz!

   Ao escutar o meu nome, tentei me levantar de onde estava amarrada, mas tudo em vão. As cordas de couro do chicote estavam cortando meus pulsos, tentei me arrastar até ele. Os dois homens que seguravam o rapaz  redobraram o esforço. Meu pai se dirigiu aos dois escravos enormes:

       - Peguem este lixo e o levem ao lugar mais descampado que puderem encontrar. Matem ele e enterrem, não deixem nem um traço de sua existência. E você – virou para mim – Você também vai desaparecer de minhas vistas para sempre. Mas, ao contrário deste infeliz aqui,que vai sumir da face da terra, eu sempre saberei aonde você vai estar.

 

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 Meu pai apontou diretamente para o armário de parede, e eu entendi tudo. O horror e a incredulidade tomaram conta de meu coração. Cimento, tijolos. O que parecia uma reforma no quarto, era na verdade a armadilha que iria me prender. O armário fora transformado em uma cela com correntes soldadas, e seria o meu túmulo... pois meu pai, aquele que deveria me amar e proteger acima de tudo no mundo, pretendia me emparedar viva. Então eu gritei.
Perdi um pouco a sanidade naquele momento. No meio de meu desespero, escutei quando levaram meu amado para longe de mim. Ele lutava ferozmente agora, para se libertar :
- Deixem-me ir, soltem-me ! Beatriz! Eu vou escapar, virei para salvá-la, meu amor, confie em mim, eu vou voltar !
Tentei mais uma vez me levantar mas não consegui. Além das cordas nos pulsos e tornozelos, ainda estava usando uma camisola longa que me impedia os movimentos. Meu pai me levantou pelos cabelos, sem dó, puxando em direção do buraco que fora o armário. Tentei resistir, firmando os pés no piso, mas foi tudo em vão. Eu escorregava, tropeçava. Com a ajuda dos dois homens restantes, ele me prendeu às correntes, no fundo do armário. Os homens pareciam tão assustados quanto eu, e eu sabia que meu pai os mataria tão logo terminassem o serviço. Não havia esperanças.
Meus pensamentos se voltaram para o meu amado. A culpa era minha, eu sabia que meu pai, caso nos descobrisse, não nos perdoaria. Eu tinha a consciência de que era arriscado, mas nada pude fazer contra o amor que senti por ele. Nós havíamos arriscado tudo para viver o nosso amor, e agora ambos, eu e ele, iríamos morrer para pagar o pecado de desafiar o meu pai.

- Por favor, papai, não faça isso, eu sou a sua filha! Não pode me matar, pelo amor de Deus !

   Ele me fitou com desdém:

        - Você? Não é mais a minha filha. Você é só uma mundana qualquer, está estragada para casar com um homem de respeito, não me serve de nada.  Estará bem melhor morta.

       - Não acredito, você me criou, me viu nascer. – as lágrimas da rejeição desciam pelo meu rosto. Eu era algo quebrado, meu pai estava me jogando fora, colocando uma parede sobre mim para que eu fosse apagada da humanidade. – Como pode não me amar, como pode nunca ter me amado? Pai?

   Ele deu as costas para mim. Os tijolos estavam sendo lentamente montados. Os homens evitavam olhar para meu rosto. Mentalmente, eu os perdoei pelo que faziam.  Meu pai apenas observava, o olhar cheio daquela raiva que ele direcionava àqueles que iam contra a sua vontade e que deveriam sair do seu caminho.

   Um a um os tijolos subiam, e a sensação de inevitabilidade subia junto. Apenas restava uma janela, na altura de meus olhos. Através do pequeno espaço , ainda pude ver meu pai, e ouvir suas últimas palavras para mim:

     - Tudo sua culpa! E por sua culpa, você e aquele caixeiro vão morrer!

   O último tijolo foi colocado,e comecei a sufocar. Então, a  parede que era meu túmulo abafou os meus gritos por toda a eternidade.

 

 

Capítulo 2

Lorena

   Acordei com falta de ar. Tateei no escuro do quarto pela bombinha,estava ao lado de meu celular.  Duas apertadas e já me senti melhor. Aquele maldito pesadelo recorrente.

   Peguei o celular sobre a mesinha, ainda eram três e meia da manhã. O que fazer? Não estava mais com sono, então fui dar uma checada no facebook. Nada. As “boas” e velhas postagens de comida, memes, fotos de gatos tristes por que o fim de semana havia terminado. Um ou outro hater, uma ou outra frase motivacional. Muito do mesmo de sempre, e  nem sono isso conseguia induzir em mim.

   Amanheceu, por fim, e resolvi ir comer algo na cozinha. Mamãe ainda não acordara, então eu ia me virar sozinha, fritar um ovo, assar um pãozinho, sei lá. Enquanto comia, lembranças do sonho voltavam para mim, trazendo a inquietude e o medo. Eu sabia que era uma bobagem sentir medo de algo improvável como um sonho, mas mesmo assim, ainda acordava com falta de ar todas as vezes que o pesadelo acontecia.

   E ele acontecia a muito tempo, durante toda a minha vida, desde quando eu conseguia lembrar. Quando era pequena, eu acordava gritando assustada, com medo do homem de olhos frios que me emparedava vezes e vezes em repetição. Eram sempre as mesmas pessoas: O Homem Terrível (assim eu chamava ao meu pai, no sonho), os quatro escravos assustados, o rapaz que eu amava. Os mesmos rostos se repetindo sem fim, numa sucessão de mesmo sonho por toda a minha vida. Às vezes demoravam a acontecer, rareavam, mas nunca desapareciam por completo.

   Por causa dos sonhos, nunca experimentei uma vida totalmente normal. Tinha a sensação de que, se me descuidasse, aquilo aconteceria comigo, eu sera pega e emparedada, e morreria sufocada com um grito sem ar na garganta. Desenvolvi desde cedo a asma, e isso também tolhia minha liberdade como um todo. Não conseguia sair de casa sem a bombinha com medicamento, e os poucos garotos que se aproximavam de mim não conseguiam competir com o rapaz a quem eu amava e que existia apenas no plano onírico.

   Sim, pois ele era perfeito. Desde a primeira vez que o vi, senti uma ligação irresistível com ele, e mesmo em meio à toda a agonia que passávamos naquele pesadelo recorrente, valia a pena  estar ali apenas para revê-lo. Eu só conseguia vê-lo daquela forma.

   Engraçado que eu não conseguia lembrar o rosto dele , completamente. Durante o sonho, eu o via claramente, seus olhos, sorriso, sua voz; porém, ao acordar, tudo meio que ficava borrado, inconsistente, impreciso. Acredito que era a maneira como a realidade tentava me puxar para este mundo, me afastando do perigo. Se os sonhos pudessem nos alcançar e machucar, se os sonhos pudessem nos enlaçar, nos trazer o amor.

   Ultimamente os sonhos estavam acontecendo quase todo dia. Nunca foram tão frequentes como nas duas últimas semanas, e isso me intrigava. Pensava a respeito, enquanto mastigava minha torrada. Um pouco depois, minha mãe entrou na cozinha, ainda meio sonolenta:

      - Bom dia Lorena, dormiu bem,filha?

   Não ia contar a respeito daquele sonho horroroso. Minha mãe estava bem a par desse meu pesadelo recorrente, o que rendeu umas sessões na psicóloga para mim, e esta época não foi nem um pouco legal. Para evitar preocupá-la, e mesmo voltar a fazer análise,  comecei a omitir que continuava sonhando com o Homem Terrível.Era melhor assim.

      - Dormi bem sim, mãe. Vou sair daqui a pouco pra faculdade, ok? Marquei mais cedo com as meninas, para fazer um trabalho.

       - Ok. Já comeu alguma coisa?

       - Sim, fritei um ovinho, torrei um pão. Estou bem, mamãe.

   Ela pegou algumas coisas no armário : - Desculpe, fico me preocupando com você, esqueço que já é uma moça feita, já tem 23 anos, afinal.- Ela riu - Mas leve algum dinheiro para comer um lanche, para almoçar.

      - Pode deixar, mãe.- Me levantei, coloquei o prato sujo na pia. O mundo real estava tomando meus pensamentos, afastando os pesadelos para longe. Minha mente prática já estava focando no banho, roupas, livros para devolver na biblioteca setorial, entre outras coisas.Em cerca de meia hora, já estava saindo de casa, direto ao ponto de ônibus.

 

 

Cristiano

   Ela está saindo de casa.

   Preciso me controlar. Não colocar tudo a perder. Apenas olhar a distânciapor todo este tempo está me colocando no limite, e odeio ficar no limite. É nessas situações que tudo fica sombrio. E a Fera surge.

   Mas não acontecerá hoje. Hoje será importante. Será essencial que eu permaneça calmo e no controle.

    Ela passa por mim e não me percebe, está tão perto que sinto o seu perfume. Por baixo do perfume artificial, do cheiro da pele limpa, um perfume que apenas eu consigo sentir, e que me evoca coisas muito antigas. Preciso controlar meu impulso de tocá-la. Aguardo um tempo e a sigo de uma  distância segura. Pego o mesmo ônibus que ela, e sento distante, sem perdê-la de vista. Estou usando uma roupa igual à de outros jovens, um casaco com capuz e zíper, uma calça jeans qualquer.

   Na parada de ônibus da universidade federal, descemos. Ainda mantenho a distância para que ela não perceba que a estou seguindo. Ela encontra as amigas na entrada do prédio. Enquanto ela conversa animadamente com as duas meninas, na porta, eu passo disfarçadamente e entro no prédio. O sangue bombeia, pulsando em minhas veias, coração disparado. Falta muito pouco. Para quem esperou tanto como eu, esse espaço de tempo é uma gota no oceano.  Aguardo silente como o predador que sou.

 

 

Lorena

    É muito bom encontrar as meninas. Apesar de ser um compromisso de estudo, só o fato de estar com minhas amigas já me deixa feliz. O  ônibus chegou na Universidade federal de Pernambuco relativamente rápido, e aproveitei para escutar uma musiquinha enquanto isso. Desci tranquilamente no ponto certo, e fui para o meu prédio, o Centro de Artes e Comunicação.

    O prédio onde estudo artes visuais é todo em blocos de cimento , com uma aparência bem arrojada. Lá funcionam todos os cursos relacionados à arte, arquitetura, letras e design, e parece uma ilha no meio da mesmice. Quando andamos pelos corredores vemos  cantores , exposições de arte instantâneas, performances, Várias vezes encontrei a orquestra da universidade em peso, completa no hall. É um lugar incrível, e não me canso e ficar admirando as diversas pessoas exóticas e alegres que circulam por lá.

    Aquele sonho horrível já estava no fundo de minha mente. Encontrei as meninas, Annelise e Luciana, do lado de fora do prédio. Annelise é baixinha, animada e com os cabelos coloridos, de um laranja intenso como sua personalidade, enquanto que Lu é mais reservada, quietinha e tímida.. Já podia ver Anne quicando de felicidade na minha direção.

      - Eita que deu formiga na cama hoje, dona Loli? – ela me abraçou com a força de um urso - Vamos fazer logo esse trabalho chato, que mais tarde quero ir lá no barzinho jogar uma sinuquinha, que tal?

   Luciana riu: -  só você mesmo Anne, para querer se livrar do estudo o mais rápido que pode só para ir farrear. Esse trabalho vai ser a segunda nota da cadeira!

   Anne fez uma cara azeda: - Você é que fica se estressando demais com essas coisas de aula. É só escrever qualquer coisa, dar um embasamento, em um português decente... não é como se fosse fazer uma cirurgia de tripa ou coisa assim. Um bom  discurso, bem justificado, e aquela professora engole. Já o barzinho...- me deu um cutucão – Um monte de gatinho de engenharia, uma sinuca, uma cervejinha...

   Lembrei dos livros para devolução, da biblioteca setorial do CAC.  – Meninas, tenho que devolver os livros da biblioteca, vou lá e volto, vocês me esperam aqui? Daí a gente vai lá para a biblioteca central estudar, o que acham?

   Luciana aceitou numa boa, Enquanto Anne fazia caretas demonstrando que isso era um tédio. Mas eu queria logo me livrar daquele peso na bolsa, para poder andar com mais liberdade. Me encaminhei rapidamente para resolver este problema, e aí foi quando levei a maior trombada.

    Mas foi uma pancada tão forte, que caí para trás. No momento em que bati de frente com a pessoa, instintivamente fechei os olhos bem apertados, antecipando o choque no chão, que não aconteceu. A pessoa à minha frente me amparou. Então, abri os olhos.

   Na minha frente estava um rapaz  preocupado. Tinha um rosto franco, bonito, cabelos cacheados claros e olhos verdes profundos. Eu fiquei meio que abobada, olhando aquele rosto agradável. Ele me segurava pelos ombros.

       - Você está bem, moça? Desculpe, sou desastrado...

   Me recompus, um pouco envergonhada: - Não, o que é isso, eu também não estava prestando atenção para onde ia e...

   De repente, a mão dele deslizou pelas mangas da camiseta e tocou a pele de meu braço. Foi como se uma corrente elétrica passasse por meu corpo inteiro, senti quase um desfalecimento. O hall do CAC desapareceu para mim. Eu estava dentro do mundo de meu pesadelo recorrente.

   Cenas se passavam por meus olhos, como um filme muito rápido, e um pouco sem sentido: Vi encontros secretos em igrejas, pessoas estranhas, roupas de uma outra época. As cenas iam e vinham desconexas. Eu estava lá, presente, e não, ao mesmo tempo. E aquele rapaz, aquele que me segurava nos braços, estava lá. Era ele o rapaz de meu terrível sonho recorrente.

   No meu desvario, eu entrelaçava o presente com o passado que me era mostrado em flashes. Por um momento, olhando para ele nesta realidade, me pareceu vislumbrar um monstro, com olhos negros como águas paradas de um horror imenso. Aquilo não era normal. O que estava acontecendo? Entrei em pânico e comecei a me debater, mas as mãos dele se cravaram como garras na minha pele. Ele parecia precisar manter aquele contato para me mostrar tudo o que achava que eu deveria saber.

    Eu tive a visão de meu pesadelo, porém bem pior, pois conseguia ver mais precisamente meu “pai”. O Homem Terrível. Toda a violência que ele foi capaz de fazer contra a minha pessoa e o rapaz que eu amava. A visão, porém, não ia até meu emparedamento. Acabava bruscamente ao som dos gritos do jovem sendo arrastado para fora do quarto que foi o meu túmulo. Depois,  um vislumbre do rapaz esmurrando a parede onde meu corpo estava sepultado, chorando e gritando desesperado. Tudo clareou, estava de volta ao Centro de Artes, e pude enfim olhar , no presente, para aquele rosto conhecido de meus sonhos.

    Ele agora parecia um pouco diferente da pessoa simpática que trombou comigo, como se a máscara tivesse sido posta de lado. Também não tinha os olhos de monstro que vi em relance durante meu delirio, e acreditei que fora apenas mais uma ilusão. Era um rapaz comum, aparentava ser um rapaz igual aos outros, mas não era. Eu estava tonta, achei que ia cair de novo. Olhei ao redor,  e ninguém  parecia nos dar qualquer tipo de atenção especial. Voltei os olhos para ele, que me encarava.

       - O... que... Quem é você? Por que...

   Ele respirou fundo e falou, em uma voz pausada e calma:

      - Lorena, escute. E escute com atenção. O  que eu lhe mostrei agora é verdadeiro. Assim como o seu sonho. Tudo aquilo que você sonhou é real, e aconteceu. Você está em um perigo muito grande, pois através destes sonhos ele está, pouco a pouco se aproximando mais de você. Ele já sabe que você existe neste momento, nesta era. E está rastreando você.

       - O Homem Terrivel – falei, quase sem querer.

     - Sim – ele respondeu – O seu “Homem Terrível”, que para mim é o Visconde de S*** . Não temos muito tempo. Você precisa tomar cuidado. O que eu fiz foi despertar um pouco o seu espírito adormecido, irei explicar.

     - Isso é loucura.- tentei me soltar dele em vão, ele tinha uma força descomunal. Mal absorvi que ele me chamara por meu nome. – Aquilo é só um pesadelo que eu tenho de vez em quando, não é real, monstros não são reais!

   Ele me olhou de uma forma assustadora. Será que ninguém ali no CAC estava vendo aquilo, ninguém  iria me ajudar?  Tentei fugir dele, me soltar, gritar por socorro, mas não conseguia me mexer, nem falar. Aos poucos, diante de meus olhos, a fisionomia dele foi mudando. Linhas vermelhas e pretas riscavam sua face, transformando o rosto jovem e bonito em algo demoníaco. Os olhos escureceram, ficaram completamente negros como poços, como covas. A voz  tornou-se arrastada,sepulcral.

     - Leia as notícias. Pesquise na internet. Verá que nesses últimos dias, moças estão misteriosamente morrendo durante o sono, sem causa aparente. Mas há uma causa. Estão morrendo, porque não são você. Os pesadelos conseguem matar, e ele está procurando por você. O Visconde de S*** se aproxima cada novo sonho seu. Ele ainda está nos umbrais de Evoé. Só vai parar quando conseguir lhe matar. E a morte não é a pior coisa que pode acontecer, pois o que ele quer é sua alma, por toda a eternidade.

   Aproximou o rosto do meu. Pude sentir o seu hálito doce, a voz melíflua  que, de alguma forma me paralisava como se eu fosse uma mosca na teia, uma mariposa na luz. Os olhos eram sombras, buracos negros que me engolfavam cada vez mais em suas profundezas. Ele tocou minha face com delicadeza surpreendente:

    - Em breve nos veremos novamente. Eu a protegerei. Mas não se iluda, ó minha dama, os monstros existem.  Somos todos monstros aqui.

    Tive um vislumbre de algo sobrenatural, como se fossem fantasmas, assombrações,espectros por trás dele. Muitos. Tantos. Monstros existiam. Foi meu último pensamento, antes de tudo escurecer ao meu redor.

   Senti alguem batendo em meu rosto com cuidado, jogando água em mim. Abri os olhos.

   Eu estava deitada no chão do hall do CAC, a cabeça no colo de Luciana. Uma roda de pessoas observava, curiosa. Anne tentava me despertar, dando tapinhas, aspergindo água.

     - Pode parar de me molhar, Anne, já acordei. – Falei .

     -  Quer matar a gente do coração, Lorena? Bebe uma aguinha aqui, tome. – Anne me deu a garrafa plástica. Dei um gole.

   Tudo parecia surreal demais. O que fora aquilo? Eu estava doida, estava surtando? Procurei ao meu redor pelo rapaz do meu pesadelo.

     - Onde está ele? Para onde ele foi, Anne?

    - Oi?  Ele quem,  Lorena?-  Anne franziu o cenho, devia achar que eu ainda estava zonza do desmaio. Segurei ela pelos ombros.

    - Ele ! O rapaz que esbarrou em mim, que estava comigo até agora a pouco. Para onde ele foi? Preciso falar com ele! - Tentei me levantar, mas estava muito tonta ainda. Respirei fundo.

   Anne parecia bastante confusa, trocou olhares com Luciana, e então falou para mim:

    - Lorena, não havia ninguém com você. Resolvemos entrar porque demorou,  e te encontramos já desmaiada, algumas pessoas estavam procurando  quem que te conhecesse. Me disseram que você estava parada, sozinha, e que de repente caiu desacordada.

    Arregalei os olhos. Eu fui vista parada, sozinha. Não havia ninguém comigo. Ninguém testemunhara aquilo que me acontecera, ninguém viu o que eu vi. Eu estaria louca?  O medo foi insidiosamente tomando conta de mim, apertando meu peito com suas garras, e parecia que este pavor, esta certeza de estar sendo vigiada,  nunca mais iria embora.

 

 

  Cristiano

   Me afasto, lentamente. Não vou lamentar o despertar de Lorena. Fiz o que fiz. Faço o que faço. Sem arrependimentos. Melhor desperta que morta.

   Foi penoso sair do edifício universitário. Com a minha “dieta” de privação, até mesmo o esforço dispendido no meu pequeno truque me exauriu. Devo estar com uma aparência terrivel.

   Me recosto a uma parede, e de onde estou posso ver Lorena saindo do prédio, procurando ao redor. Deve estar assustada e confusa, e trazendo o que traz dentro de si, provavelmente furiosa. Meu corpo dói, reclama por alimento.

   Uma coisa me faz rir: eu fui até ali de ônibus, o meu carro estava distante demais, e eu, doente demais. Precisava voltar até onde deixei meu pequeno Ypsilon vermelho. Com esforço, vou em direção à uma parada de taxis. Os motoristas que trabalham na área já estão acostumados a estudantes de diferentes situações, bêbados, até mesmo bem bizarros, e o taxista que me atende não estranha muito minha aparência emaciada. Dou o bairro e me recosto no banco de trás, em silêncio. O homem deve ter pensado que eu estava drogado, mas mostrei um maço de dinheiro antes de entrar, o que facilitou bastante a prestação do serviço. Um drogado sim, mas um drogado rico, foi o que ele deve ter concluído.

   Pela janela observo a paisagem, desinteressado. Recife já fora mais bela, suas ruas mais limpas, o ar mais agradável. Agora era um amontoado de lixo em vários pontos, e mesmo ao meio fio, carros buzinando, pessoas irritadas com o calor excessivo, poluição em todo canto. Onde estava aquela cidade de outrora, que era feita de tardes indolentes, clima suave,  mistérios?

   Bem, mistérios nunca deixaram de existir.

   Mesmo naquela cidade decadente, mal cuidada, os mistérios teimam em permanecer. Estão invisíveis aos olhos dos habitantes mortais comuns, que não comungam do mundo invisível de Recife, que desconhecem Evoé.  Para eles, é apenas uma cidade, sem muitas novidades; para nós,que fazemos parte do submundo, é a tampa do sepulcro, a toca do coelho branco,  a caixa de Pandora. Me vejo no espelho retrovisor do taxi, estou assustador.

   Pensamentos amargos passam por minha mente. Hoje é um daqueles dias, os dias que enfileiro em minha extensa vida, os dias que justifico como matar ou morrer. O motorista parece aliviado em se livrar de mim, pudera! Dei um dinheiro extra pelo inconveniente.A noite chega, o que alivia um pouco o desconforto geral que sinto. Preciso me alimentar.

   Caminho devagar para meu carro. É um Chrysler baby Ypsilon vermelho e preto, perfeito para mim. Pequeno, rápido, moderno mas com um ar antigo. Sempre gostei dos veículos dos anos 40, e a Chrysler mantém um certo  saudosismo no design de seus veículos. Ainda consigo dirigir para caçar.

   Como disse, mais um dia dos detestáveis. Mas faço o que preciso fazer. Sem arrependimentos. Minha frieza também ajuda nestes momentos. Penso nos desvalidos, nos não reclamados, nos desimportantes. Nos maus.

   De certa forma fui agraciado com uma facilidade em identificar o mal. Devo ser como um espelho, ou um ímã que atrai iguais. Para onde vou? Para a zona sul da cidade.

   Boa viagem é uma praia linda. O bairro mais fashion e caro e Recife. Também uma zona de prostituição de cardápio variado. Quando a noite cai, é como uma fauna que surge nas esquinas, em toda e cada esquina. Existe inclusive um código das ruas e avenidas, onde go-go boys, transexuais, garotas se oferecem a quem pagar o preço. Demorei algum tempo para chegar até ali, tomando cuidado para não sofrer um acidente. Estou quase perdendo os sentidos. Não posso me dar ao luxo de escolher demais, o meu único critério: alguém mau, que não mereça estar vivo.

   Poderia usar a moralidade como desculpa para a escolha, mas não é verdade.  Não sou um justiceiro, nem bom, nem altruísta. Apenas o sabor da maldade agrada mais,  como um tempero, e torna isto um pouco menos complicado. O carro vai devagar pela rua, vou escolher , bem, um pouco. O carro anda devagar, olho as pessoas nas ruas: algumas moças assustadas, algumas infelizes ou raivosas de sua situação. Algumas apenas querem um dinheiro para roupas, sapatos caros, estudos. São pessoas comuns, não essencialmente más. Porém, em uma esquina, vejo ela: Deve ter uns 35 anos, magra e aparentando ser mais velha, e já matou algumas vezes. Matou por dinheiro, por drogas. Um pouco psicopata, extremamente perturbada. Ela aguarda algo para destruir, não é apenas por dinheiro, ela gosta da sensação.

    Me olho no retrovisor, estou quase no limite da Fera. Meu rosto, que em dias normais é belo e agradável, apresenta olheiras. Pareço um cadáver vivo,um olhar faminto e aquele quê de desespero. Consigo passar por um homem drogado em um dia ruim, um dia muito ruim mesmo, precisando de uma dose. Deve bastar para aquela mulher gananciosa e essencialmente má.

     - Então, garota, está sozinha ?

   Ela se empolga diante das possibilidades que ofereço: Homem, aparentemente rico e drogado. Ele mesmo está tão bêbada que nem consegue pensar coerentemente, mas sei que suas intenções para comigo não são boas. Sorrio, e ela toma isso como uma simpatia. Abro a porta do passageiro e ela entra, falando:

    - Já deve saber o preço, são 300 por duas horas. Você não está muito bem, não é mesmo, moço?  Precisa de um pouco de pó, algo mais forte, posso conseguir...

    - Só você, meu bem, você é o remédio de todos os meus males ... – sorrio e devo parecer um demônio, ou um louco para ela. Mas ela está confiante de que vai conseguir acabar comigo e pegar meu carro. Se eu tivesse uma consciência e alguma piedade, talvez agora estivesse mais aliviado em relação à ela, mas apenas quero acabar com minha agonia.

   Pego a avenida sentido contrário à que estava, rumo à uma praia mais deserta. Após Boa Viagem, temos Piedade e Candeias, e é para lá que me dirijo: A esta hora, quase meia noite, provavelmente mais ninguém estará por lá na praia, isso facilitará as coisas.

    - Estamos indo para algum motel aqui em Candeias? – Ela passa a mão em minha calça – Vamos para seu lugar?

    - Prefiro a praia .- Tento me concentrar no caminho.

    - Hummm safadinho, adoro! Vamos então... – Ela se aperta em mim, eu a afasto, pois a Fera está quase me dominando.

    - Daqui a pouco, meu bem.

   Ela não parece muito preocupada nem motivada pela minha triste figura. Mas eu, ao contrário, cada vez mais me sinto atraído. É insuportável o quanto eu preciso dela.

    - Aqui está bom,- dou uma curva fechada, entro por uma rua e pego o caminho da praia. Deserta. Inclusive, uma área bem perigosa, àquelas horas.Isto agrada à mulher, e ela parece procurar algo dentro da bolsa. Uma faca ou arma, supus. Estacionei o melhor que consegui, descemos.

    - Vem, por aqui.- Ela me puxa pela mão, eu deixo que ela me leve ao local. A escolha da dama.

    - Hummm, vem, já está contando seu tempo, bonitão.

   Ela está com a mão nas costas, ocultando a faca que acredita que não percebi.Eu a abraço.

   Colo minha boca na sua , e busco a essência de sua energia. Deve estar sendo agradável para ela, pois meio que desiste de sua primeira intenção de me esfaquear,  e retribui meu beijo.

    - Meu, que beijo bom, cara,que beijo...

Eu não a deixo falar, pois preciso deste contato.Tanta fome. Esta fome primordial , que desperta a Fera dentro de mim. Mais um dia daqueles. O beijo se aprofunda, ela esquece de tudo. Esquece o tempo, esquece a faca. Apenas o que existe são meus lábios, meu beijo que literalmente mexe com ela por dentro. A energia flui e circula por todo seu corpo, pelo plexo solar. O prazer inicial vem desta energia, saindo dela, vindo para mim. Me sinto cada vez mais forte. Ela consegue se soltar mais uma vez de meus lábios e me olha, meio assustada:

    - Mas que porra? Como você ficou assim bonito, o q...

    Forço meus lábios contra os dela, agora sugando a energia com mais e mais força. Ela enfraquece, devido à decadência de seu corpo. Logo entrará e colapso. Como que percebendo que algo não está certo, talvez já a dor substituindo o prazer, ela bate em mim. Pega a faca que caiu, me fere uma ou duas vezes nas costas. Mesmo sentindo meu sangue escorrer por sob a camisa, não largo a minha presa. Já estou por demais envolvido.   Com minhas garras perfuro o ventre dela.Minha mão invade a caixa torácica, tateando, procurando.

   Sinto a viscosidade do sangue que sai aos borbotões, ela grita, mas meus lábios ainda estão aprisionando os dela, meus olhos abertos esquadrinhando seu rosto mortal. O grito dela é abafado por meu beijo . Ela entra em choque e começa a tremer. Finalmente a solto, ela desliza para o chão. Nas minhas mãos, tenho o que buscava dentro de seu corpo moribundo. E ela morre, enquanto devoro seu fígado escuro.

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Cristiano

   Lorena ainda não faz ideia de quem sou. Por isso, ela acredita que estou distraído checando emails, ou coisa que o valha no celular, quando na realidade, eu a vigio. Pois sou um predador. Ela por enquanto está a salvo do Visconde, mas não a salvo de mim. Estou faminto. Minha aparência física decaiu visivelmente,  e ela percebeu.

   O fato é que entrar no sonho dela para resgatá-la consumiu muita energia.

   Após o jantar e deitá-la na cama, até me sentia aliviado de tê-la ali a a salvo. Precisava relaxar um pouco, então peguei um livro e fui para o living.Parecia que a noite seria calma... Estava na sala, escutando um pouco de música clássica, baixinho para não incomodá-la, quando ouvi os barulhos vindos do quarto.

   Ela estava completamente descoberta, os lençóis ao chão, e se debatia no sono. Só poderia significar uma coisa: O Visconde a encontrara. Ela perdia a cor do rosto, arfava. De repente, marcas de sangue apareceram em seu ombro macio. Eu precisava me apressar, tentar fazê-la reagir e lutar dentro do sonho, antes que ela fosse morta.

   Havia um meio de me comunicar com ela dentro do sonho. Rapidamente, segurei-a pelos braços e criei uma espécie de elo psíquico. Poder Liminar. Nunca antes usara esta habilidade, e me senti drenado pelo esforço. Meu poder escoou entre nós dois, e de repente entrei em uma espécie de transe hipnótico. Neste momento, tive a visão da porta. AQUELA PORTA. Como esquecê-la, Deus meu. Rua Nova, número 200. Meu quarto, 1860. Recuando um pouco, quase hesitei. Que horrores estavam por trás daquela porta?

   Fui até ela, e a abri. Imediatamente a presença do Visconde veio até mim. O O quarto estava vazio, gélido e com o cheiro de rosas fenecendo. Ali estava ela, minha Beatriz, mas a sua imagem se mesclava com a de Lorena, uma sobrepunha a outra. O Visconde de S*** estava por sobre ela, e  tentava matá-la. Fiquei furioso, mas logo percebi que nunca iria conseguir entrar no quarto, pois algo ali dentro me empurrava para fora, vigorosamente.

    Gritei a plenos pulmões o que ela deveria fazer, e ela me ouviu. Consegui trazê-la de volta, mas o preço cobrado era caro. Sentia uma fome quase insuportável, precisava me alimentar, e minha face estava mudando, se tornando mais e mais cadavérica.

   Respirei fundo, buscando dentro de mim o autocontrole que precisava para me segurar. Mas não era fácil. Não tendo em meus braços um ser humano todo pulsante de energia e sangue, emitindo aquela aura confortável e rosada, ao meu redor. Não podia simplesmente roubar um pouco de sua energia, tal um vampiro.  Precisava drenar toda a energia, e por fim comer do fígado quente, retirado do  corpo ainda vivo. Nada além daquilo me nutria de verdade. Todas as minha vítimas morriam.

   Se eu não me alimentasse... Eu seria o perigo para ela. Tinha de me livrar dela, fazê-la dormir, mas não podia tocá-la, senão perderia o controle e a mataria.

   A sorte era que ela estava bêbada ainda, tonta do remédio, era uma questão de tempo para dormir. Me afastei dela assim que pude, e fingi checar algo no celular, para que ela dormisse o mais rápido possível. E a vigiei, usando o mesmo recurso de um gato, que parece distraído, mas que na realidade está cem por cento concentrado na presa.

  Enquanto fitava a tela inicial do celular, pensava. Apesar de nunca ter usado aquela habilidade de caminhar dentro dos sonhos, consegui relativamente fácil. De certa forma, o elo que existia entre nós dois cuidara indiretamente disto, com certeza facilitando a minha entrada, e a prova eram os sonhos recorrentes que ela teve a vida toda.

   Lorena não sabia, mas eu também sonhava com ela.

   Lembro de como me espantou a primeira vez que, nos sonhos, vi uma menina de cabelos castanhos placidamente adormecida em sua caminha. Vinte anos atrás. Ela deveria ter uns três ou quatro anos então. Os meus sonhos a acompanhavam no presente, enquanto os dela sempre estavam em nosso passado juntos. Naquela primeira vez, o espanto rapidamente foi substituído por uma alegria agridoce. Eu sabia que ela voltara para este mundo. A minha Beatriz retornara do limbo onde estava, o lugar proibido, ao qual nem mesmo eu, um Liminar, tinha acesso.

O lugar dos mistérios para onde os mortos iam, e do qual apenas voltavam para encarnar outros corpos, outras vidas. Alguns denominam paraíso, outros, plano cósmico, mundo espiritual; Aquela porta era cerrada, inacessível pela noite dos tempos herméticos. O véu eterno que jamais podia ser levantado por quaisquer criaturas vivas, mortas, assombrações ou monstros.

   Apenas humanos naturais acessavam este dom de salvação. A minha Beatriz morrera como humana, e para lá fora levada. E ela voltara, após 155 anos. Porém, não voltara totalmente desprovida das memórias da vida anterior, e havia algo a mais, ainda.

    Cada novo sonho que Lorena tinha, eu a podia ver, nos meus próprios. Sempre adormecida. Crescendo. De uma menina à uma adolescente, e se tornando adulta. Meu sonho acabava quando ela acordava, sempre e sempre.

    Nossos subconscientes estavam conectados, e ela sonhara toda a vida comigo por conta disto. A lembrança da vida anterior voltara, e nos ligara inexoravelmente. Era uma preparação para tudo o que ainda viria.

   Escutei seu suave ressonar, e me retirei do quarto. Precisava caçar. Mas não poderia me distanciar do prédio. Eram aproximadamente três da manhã. A necessidade por alimento me consumia.

    Usando as mesmas roupas confortáveis, apenas calcei um par de tênis. Fechei cuidadosamente o apartamento , desci pelo elevador  e encontrei um porteiro sonolento, que me abriu a saída.

  Andei um pouco a esmo, arrependido de não ter pego o carro. Na realidade, aquela era uma tática de caçada. Sozinho na rua, altas horas, esperando o ladrão que viria me assaltar.

   Ler a aura dos humanos me ajudava de sobremaneira. Se alguém me seguia, ou vinha em minha direção, eu logo a enxergava ao redor de seu dono, como uma luz irradiada. Caso a aura apresentasse veios negros mesclados a cores sombrias, com certeza, era uma pessoa capaz das piores maldades. Se eu precisava me alimentar, ao menos que fosse de alguém mau.

   Ri comigo mesmo. Como se eu fosse bom.Eu era tão ou mais assassino que eles.Minhas vítimas.

   - Ajuda, pelo amor de Deus.

O pedido vinha de um amontoado de panos ao canto do muro. Ali, ao que indicava, havia uma pessoa.

   Automaticamente, li a aura dele. Não era um homem essencialmente mau, estava bêbado. Era muito, muito velho. Isso se confirmou quando ele saiu de debaixo dos inúmeros trapos sujos que o cobriam.

  Um senhor negro. Barba desgrenhada, grisalha, olhos doces e castanhos. Uma tristeza sem fim dentro deles: - O rapaz pode me ajudar? Estou com fome, não como há dias.- Apenas baixei os olhos por um segundo para a garrafa ,mas ele percebeu. Deu um sorrisinho culpado. – Sabe como é, né?  A gente se vira nesta vida como pode.

   Agachei junto dele: - Como posso ajudar o senhor?

Ele me olhou bem dentro dos olhos, e senti minha alma invadida. Nunca um humano me olhara daquela forma, como se soubesse institivamente quem e o que eu era. Ele deveria ter passado por inúmeras dificuldades, encontrado muita dor em seu caminho, para ser tão perceptivo. Seus olhos procuravam algo, para confirmar, e a compreensão surgiu dentro deles.Deu um suspiro.

  - O rapaz  deve ser um bandido, para estar a esta hora na rua.

  - Não sou um bandido, meu senhor.- Repliquei.

  - Ou um assassino. – respondeu, imediatamente.- Pois tem algo de muito errado com você, rapaz. Posso ver isso.

    Me limitei a olhá-lo, sem disfarces.Meu rosto encovado e faminto tinha uma beleza selvagem, eu sei. Atraía alguma mulheres justamente por isso.mas ali, naquela entrada de beco na rua silenciosa, éramos só nos dois , eu e o velho.

    Ele suspirou novamente;- Não tenho mais nada de meu aqui. Sou pobre, velho e cheio de dores pelo corpo. Fiz coisas das quais me arrependo muito, magoei pessoas. Abandonei minha família por conta da cachaça, e nenhum consolo achei nela que não viesse, depois, o ressentimento e a culpa. Sou um ninguém morto a fome.

 Sentei no chão sujo ao lado dele, cruzei as pernas  e apoiei o queixo nas mãos, sondando-o: - São muitos arrependimentos, não é mesmo, meu velho? Mas onde está sua família? Não poderia voltar para eles?

Ele negou veementemente com a cabeça, com um olhar vago: - Minha mulher e meus filhos foram embora de Recife faz tempo, ela casou de novo. Devo ter neto e bisneto e nem sei. Às vezes... - parou, me olhando de novo, tentando focar no meu rosto. – São coisas de velho. O rapaz não é deste mundo, não é mesmo? Não parece ser daqui.

Levantei a cabeça. Surpreendido. O homem era sagaz: - Não.- Confessei.- Não sou mesmo.E entendo bem o senhor. Eu às vezes quero ir embora também desta realidade confusa.

  - O rapaz é muito novo para saber, mas a cidade era bem melhor antigamente. Dá uma saudade danada de quando era jovem.

Sorri para ele: - O que o senhor lembra? Posso saber mais que imagina.

   Então conversei com ele. O homem devia ter uns 86 anos. Mas sentia também saudades de uma época mais leve,mais simples, quando a cidade era mais limpa,mais clara. Falamos sobre o passado, e ele se surpreendeu quando citei lugares, restaurantes, lojas e passeios que existiam 50, 60 anos atrás.

  Ele lembrava o que era comer uma fatia de bolo xadrez na Confeitaria Confiança, e encontrar um pedaço de chocolate meio amargo no meio dele, o melhor bolo da cidade. Beber um Fratelli Vitta gelado, o refrigerante doce descendo pela garganta. “Tirar linha” na calçada da loja Slopper com as moças que por ali faziam o “footing”. E depois, levar a garota para As Galerias e tomar um maltado delicioso. Todo engomadinho numa fatiota branca de linho, perfume francês, como um bom rapaz.

   Ele fora um bom rapaz. Em algum momento, assim como aconteceu comigo, a vida deu uma reviravolta amarga e tirou dele tudo que tinha. À ele, só restara beber. À mim, matar.

- Mas não é possível, rapaz! - Ele enxugou uma lágrima de riso no canto dos olhos.- Você é realmente um fantasma, ou um anjo então, para saber tanto sobre este passado...

- Sou o demônio, senhor,- Repliquei.- Para mim, não há repouso ou paz. Se fosse um fantasma, a muito teria ido embora deste mundo de merda.

- Eu quero ir. – Ele deu um riso triste.- Mas o pessoal da igreja diz, quando vem distribuir pão, que Deus tem planos para mim. Que planos são estes? Me deixar morrer de fome no meio da rua? Apanhar até morrer, ou ser queimado vivo enquanto durmo? É esse o destino de todo mendigo no Recife, ou em qualquer lugar.

   Eu o olhei com pena. Realmente, senti pena dele, um sentimento que pensava ter esquecido a tempos.

   Aquele homem bom. Seus doces e sinceros olhos castanhos, a pele lustrosa negra, esticada por sobre os malares, que disfarçava a idade muito bem. Ele me olhava agora sem medo, como se confiasse em mim.  Sorri para ele, ele me sorriu de retorno:

- O rapaz me fez um bem danado com essa conversa, Bons tempos aqueles, eu era feliz para caramba. Esse mundo não serve mais para mim. Não é um mundo bom para gente velha, pobre e quebrada feito eu.

Então, eu o fitei bem dentro dos olhos, sério:

- E gostaria de partir, ir embora? Deixar este mundo, para ver o que pode existir em outras esferas?

- Isso é possivel? Se é, eu quero sim! – Ele parecia aliviado.- Você é o anjo, sim. Com esses cachos todos, e olhos verdinhos.Veio me buscar, não foi?

Fechei os olhos por um momento, e ao abrir, respondi: - Sim. Virá comigo? - Estendi a mão para ele. Em minha mão macia e branca, ele pôs sua triste, calejada e frágil mão. Para mim, parecia um avô, alguém que merecia todo o meu respeito. Que deveria ter dignidade na partida. Meu coração doeu.

- Irei sim, meu anjo! Irei! – Pareceu hesitar um pouco: - Vai... doer?

Sorri, negando com a cabeça: - qual o seu nome?

- Meu nome é Severino, “seu” Anjo.

- então, “Seu” Severino – Falei suavemente, já usando um pouco de minha persuasão com ele.- Serei gentil com o senhor. Venha mais perto, por favor.

   O velho gesto de caçar, com uma roupagem nova que me surpreendia. Aproximei meu rosto do dele, segurei suas faces encovadas entre as mãos. Então, colei os lábios nos dele.

   Homem, mulher, são todos alimento. Era parte do ritual a ser seguido. Ele deu um pequeno pulo, como que assustado, mas logo relaxou nos meus braços e se entregou. Todos se entregavam.

   Eu precisava do nome dele, para fazer o que estava fazendo. Com a mente, invoquei o seu espírito. Tentei trazer na minha memória um Recife antigo e já inexistente a 50, 60 anos atrás, e suas ruas. Não podia ver os pensamentos dele, nem visualizar sua esposa e filhos, mas podia cercá-lo de coisas boas na visão que lhe proporcionava.

Ele deu um risinho, de encontro à minha boca. Ele estava sonhando com um passado maravilhoso, onde ele era jovem e tinha todo um futuro pela frente. Nada estava perdido, nada estragado.

   Assim como a pequena vendedora de fósforos de Hans Christian Andersen, ele alucinava no calor dos fósforos, no calor das memórias e à beira da morte que eu trazia.O seu anjo da morte. A cada tragada de sua energia, eu emitia pensamentos felizes para ele, onde havia tudo de bom que eu podia invocar. Era uma morte misericordiosa, cercada de calor, amor e boas comidas.

   Quase o levei ao portal dos mistérios, para evitar a dor de perfurar seu estômago. Ao descolar os lábios dele, um suspiro saiu, algo como “Obrigado” . E depois: “Mãe...”. A pele estava tão fina que rompeu ao contato de minhas garras. Ele estremeceu um pouco, abracei-o com mais força. Me alimentei delicadamente, o mais gentil que podia, quase uma carícia. Foi um banquete de piedade e doçura, como jamais eu provara em todos estes 180 anos de vida.

Lorena

   Abri os olhos, mas ainda estava cansada. Sentia falta de ar, e busquei minha bombinha. Um borrifo, e já me sentia melhor. Levantei. Estava usando as mesmas roupas do dia anterior, então fui ao banheiro, me olhar no espelho, jogar água no rosto.

   Ao chegar lá, lembrei de tudo. Chequei meu ombro e peito, e como Cristiano dissera, não havia nenhuma marca mais lá. Sentia ainda um certo desconforto que me fazia acreditar que tudo fora verdade, e não uma alucinação de minha cabeça.

   Precisava saber da verdade. Apoiei os punhos no balcão. Hoje sem arrodeios, sem bebedeira, sem meias palavras. Ele iria falar, era a minha vida que estava em jogo. Encarei decidida meu reflexo. Ia resolver isso !

   Ao sair do quarto, logo o vi na cozinha americana. A noite parecia ter feito bem à ele, pois a aparência estava bem melhor que na véspera. Usava uma camiseta limpa e bermuda feita de um jeans rasgado. Estava descalço.

   - Café da manhã, Lorena?

   Tomei coragem e me aproximei a passos largos, cobrindo a distância.

  - Não, não quero café, não quero nada mesmo além da verdade. Ontem eu fiquei bêbada, aconteceu o que aconteceu, e quase morri. Quero a verdade, e quero agora, Cristiano!

 Ele largou a colher de pau que segurava, levantando as mãos em um gesto de paz: - Bom dia , primeiro?

- Bom dia. – resmunguei.

- Sente-se, por favor, coma.- Ele indicou a mesa. – Não vou enganá-la mais, prometo que você vai saber de toda a verdade, agora logo após comer. Mas coma, primeiro.

   Confusa, obedeci. Comi o que ele colocou para mim, ovo, pão com manteiga, café. Nem sentia o gosto, apenas engoli o mais rápido possível. Limpei o prato. Empurrei na direção dele, e o encarei.

- Muito bem. Venha .

   Ele me estendeu a mão, me levou até o sofá, sentamos, um de frente para o outro. Eu me sentia levemente descofortável , mas iria até o fim com aquilo.

- Você me pede a verdade. Mas a verdade pode magoar, pode mesmo destruir. -  Não me importo. Quase morri ontem, tenho certeza.- Repliquei.

Cristiano suspirou : - Melhor que falar, eu mostrarei. Me dâ suas mãos.

- Quê?

- Me dê suas mãos. Vou criar um elo psíquico entre nós. Projetar para você o que aconteceu. Consigo fazer isto, é relativamente fácil.

- Dói?- Senti um pouco de medo. Mas precisava saber.- Ou... machuca você?

- não. – Ele estava surpreso – Nem doerá, nem vai me prejudicar, prometo. Agora, poderíamos...?

 Coloquei minhas mãos nas dele. Uma espécie de descarga elétrica me percorreu.

- feche os olhos, Lorena.

Eu fechei. E então, aos poucos, imagens começaram a surgir em minha mente.

 

 

 

 Lorena

   Saí correndo do prédio do CAC, e olhei ao redor, no estacionamento da frente. Luciana e Anne saíram atrás de mim, preocupadas. Eu devia parecer uma maluca mesmo, mas elas não sabiam o que eu tinha visto.

   Não o encontrei. E se tudo tivesse sido apenas um delírio do desmaio, se fosse? O que ele falara sobre as mortes de moças? Procurar na internet. Abri minha bolsa e vasculhei freneticamente até encontrar o celular. As meninas me observavam, meio que estupefatas. Fui na pesquisa: Moças mortas durante o sono.

   O que eu encontrei me horrorizou. Como aquela notícia não tinha chegado até a minha pessoa? Eram muitas garotas, muitas mesmo. As notícias eram  pequenas , falavam algo sobre doença, não sobre crime. Uma coisa, porém, me chamou atenção: todas as moças que morreram eram daqui de Recife.

   - Ér... Lorena ,- Anne parecia estar bastante apreensiva.- Você está bem? O que tanto procura nesse celular? Está tão pálida, deveria sentar um pouco...

   - Não ! – Eu mesma me assustei com a minha voz trêmula. – Meninas, aquele rapaz me falou sobre moças que estão morrendo por Recife inteiro, estão morrendo sufocadas no sono ! A prova de que eu falei com alguém , que tinha um rapaz ali comigo, olha!

   - Eu sei – Luciana falou, nem mesmo olhando a tela do celular. – De vez em quando sai uma nota no Diário de Pernambuco, mas é uma doença, Loli, o que isso tem a ver com o que aconteceu lá dentro? Você deve ter visto essa notícia por aí.

   Como explicar tudo o que passei, os sonhos recorrentes assustadores ao longo dos anos, o rapaz que me assombrava noite a noite, e que se materializou na minha frente, afirmando que aquelas ditas mortes casuais eram de fato, assassinatos? Eu iria parecer uma doida varrida.

   Melhor deixar para lá. Guardei o celular na bolsa.

   - Escutem – Falei – Deve ter sido cansaço acumulado, estou muito estressada como que aconteceu, acho que nem estou pensando direito. E tenho uma fome danada agora.

   As duas pareceram aliviadas, e apesar de termos perdido um tempo, talvez ainda desse para terminar o trabalho a tempo. Disfarçadamente olhei por sobre o ombro, ainda procurando por ele, mas não o vi mais. Nos encaminhamos para o hall do CAC, e de lá para a cantina. No meio das conversas, lanche, realização das pesquisas, apresentação do trabalho para a turma,  consegui me distrair um pouco, mas não completamente. Um dia atípico, uma situação mais ainda.

   À noitinha, voltei de ônibus. Sentia um pouco de medo, e todo barulho me fazia dar um pulo, sobressaltada. Com alívio, cheguei em casa. Mamãe estava na sala assistindo a novela.

   - Lorena, tem comida quente ainda sobre o fogão, como foi o dia? Conseguiram entregar o trabalho à professora?  – Ela sorriu quando me viu chegar.

   Éramos apenas eu e ela. Com a morte de meu pai, quatro anos antes, eu e mamãe tínhamos nos mudado da casa em que tudo aconteceu, para uma outra casa menor, no bairro da Torre. Era uma casa próxima à avenida principal que margeava um dos braços do Rio Capibaribe, com dois quartos, fresquinha e bem confortável. Eu gostava de morar ali, e gostava de sermos só nós duas, isoladas de tudo, mas naquele dia eu não estava vendo vantagem em duas mulheres sozinhas e desprotegidas contra um possível assassino, ou no mínimo um psicopata estuprador. E se aquele rapaz fosse este assassino, este psicopata? Ele pareceu bastante louco para mim.

   Também me pareceu bonito. Olhos torturados, tristes e profundos, mas com um algo feroz. Igual ao rapaz de meus pesadelos, usando roupas modernas. No mundo dos sonhos, o rapaz fora levado para ser executado. E eu (era eu), fui emparedada para sufocar até a morte. Senti um medo irracional, ao pensar no sofrimento do casal, que apenas cometera o crime de amar um ao outro.

   - Mãe, eu vou comer depois, ok?  Quero tomar um banho, o calor está demais ! – Me dirigi para o banheiro. Tomei um banho, vesti minha camisola e fui para meu quarto.

   Na realidade eu queria ficar a sós com meu notebook. Continuar a pesquisa interrompida.

    Abri a página de pesquisa na internet e busquei os fatos. No notebook era mais fácil organizar as abas e ler as notícias uma a uma. Uma doença, ou virose, possivelmente cardiorespiratória, estava matando jovens em toda a cidade. Não chegavam a tempo de atendimento médico, nenhuma das vítimas sobrevivera; todas encontradas mortas na cama, nenhuma anormalidade detectada em exames. Olhei as fotos das meninas,  moças comuns, de biotipos diversos, não guardavam semelhança alguma umas com as outras. Exceto pela idade. Regulavam com a minha: entre 23 e 25 anos. Essas informações se repetiam por quase todas as notícias, e não havia muita informação além disso. Todos pareciam acreditar ser algo relacionado à falta de ar, cardiopatia congênita, asma.

   Senti um baque. Desde sempre eu sofrera daquele mal, precisava o tempo todo carregar a bombinha do medicamento, ou o xarope. E ali estava a asma como sendo uma das causas possíveis de morte. Eram casualidades de saúde, e por este motivo não havia um grande alarde nas notícias da televisão ou jornais. O medo apertou suas garras em meu peito.

   O conjunto de tudo era assustador. E se eu fora apenas hipnotizada, ou drogada para seguir a sugestão das palavras de um louco?  E se aqueles sonhos fossem apenas avisos do encontro com um possível psicopata? No mundo real isto seria possível, seria viável. Não um mundo fantasmagórico hipotético, paralelo ao nosso, como um conto de fadas às avessas.

   Mas as moças mortas... nenhum sinal, nenhuma marca de asfixia, mãos humanas ou suspeito para culpar. Aparentemente, eram mortes causadas por deficiências. Mas com o detalhe: nenhuma das jovens possuía histórico médico compatível. Nenhuma delas era asmática, cardíaca ou particularmente alérgica.

   Fechei o notebook. Um peso se abateu por sobre mim. Estava andando em círculos, sem chegar a lugar algum. Minha mente cansada não conseguia mais coordenar o real e o imaginário. Peguei a caixa de comprimidos e minha garrafinha, que estava na mochila ainda. Engoli um calmante com um pouco d’água. Queria uma noite sem sonhos, uma noite que passasse em um instante, a fuga da realidade, o refúgio no esquecimento.

 

Cristiano

   Segurei a cabeça entre as mãos. O sangue seco ainda tingiu meus cabelos, e me senti miserável. Não havia indulgência. Estava exultando com a energia circulando em mim, um frenesi físico, igual alguém faminto que teve a oportunidade de saborear um banquete.

   Mas eu sempre me sentia miserável.

   Tudo que eu desejei na vida foi ter o meu tempo, cumprir meus anos na terra, ao lado da mulher amada; construir algo, criar meus filhos, viver ainda para conhecer netos, morrer em minha cama cercado de amor e paz. A paz que só aqueles que realizaram seu caminho natural pode obter...

   Mas isto me foi negado. Não tive nada que desejei na vida. Apenas essa herança maldita de sangue. Olhei para a mulher estraçalhada ao meu lado. O rosto em um esgar de medo, o ventre aberto ainda vertendo sangue. Queria poder sentir algo por ela, mesmo pena, lamentar sua passagem deste mundo, mas não consegui. O cheiro de vida já abandonara seu corpo, aquela essência que reveste todos os seres humanos. Minhas narinas conseguiam captar a putrefação iniciando. Eu precisara me alimentar, ela estava ao alcance de minhas mãos.  Não me inspirava pena. Não me despertava nada.

   O processo de obter a energia vital e me alimentar do fígado de minhas vítimas era sempre o mesmo. Uma longa fileira de mortos me precedia, e agora esta mulher sem nome se juntara à eles.

   Permaneço ainda um pouco ao lado dela. É um tipo de velório e, dadas as circunstâncias, o melhor que ela poderia receber nesta vida. Não me preocupo em apagar os rastros de meu crime, não há digitais. Alguns classificariam esta minha característica como adermatoglifia, ou doença genética daqueles que não possuem impressões digitais, mas eu não era portador desta doença.

   Olhei para as minhas mãos finas, meus dedos lisos e pálidos. Eu não tenho digitais. Não mais, desde que me tornei um predador. Pode ser um tipo de evolução da espécie, bem conveniente nos dias atuais, mas também complicado. No mundo de hoje, tenho minha identidade, falsa, obviamente, assim como todos os meus documentos forjados. Porque não conseguiria obtê-los de forma verdadeira, não sem levantar suspeitas. As pontas de meus dedos lisas iriam  causar um certo problema, então era preferível adquirir meus documentos de forma ilegal. Tem sido assim desde sempre. Novas datas de nascimento para disfarçar minha extensa linha da vida.

   Eu nem sempre fui assim. Tive uma mãe amorosa, que me criou sozinha, em uma época em que mulheres desacompanhadas de marido sofriam muito. Vim de uma vila do interior de Pernambuco, pequena e acanhada naqueles tempos. Um amontoado de casas ao redor de uma fazenda de nome Caruru, pertencente à família Rodrigues de Jesus. Sentado ali, ao lado do corpo de minha vítima, meus pensamentos voltaram a um passado distante, quase tão apagado quanto a ponta de meus dedos.

   O vilarejo de Caruru nasceu à sombra da fazenda revitalizada. A antiga sesmaria indígena doada em 1681, posteriormente abandonada e retomada em 1776 como Fazenda Caruru, deu origem ao pequeno povoado que se reuniu ao redor da capela, como que em busca de proteção. O fundador da vila já havia falecido na ocasião de meu nascimento, mas minha mãe me falara que então Caruru já estava organizada em estradas de terra, um grupo escolar, a capela e a casa grande da fazenda.

Eu levo apenas o nome de minha mãe em minha antiga certidão de nascimento. Ao chegar em Caruru ela estava grávida de 5 meses, e se declarou viúva para evitar falatório. Se algum dia descobrissem que era mãe solteira, seria escorraçada do lugar. Hoje em dia não é nada, mas naqueles tempos a boa conduta era vital para a reputação de uma moça. Nasci pelas mãos da parteira local, uma senhora índia muito querida de todos. Fui batizado na capela da fazenda, recebendo o nome de Cristiano Alencar. Era o ano de 1837.

   Aos 6 anos de idade eu ingressei no grupo escolar  para aprender as primeiras letras, e lá todas as crianças estudavam , inclusive o bisneto do fundador da cidade, e que se tornou meu melhor amigo de então. Seu nome era José rodrigues de Jesus, mesmo nome do  bisavô. Meu amigo de folguedos juvenis. Lembro que ainda havia índios que habitavam a região, e que as crianças de caruru brincavam com os indiozinhos, numa confusão de gritaria e alegria. Do mais rico ao mais pobre, todos conviviam e partilhavam o mesmo espaço de ensino e catequese.

  Em 1848 eu vi o aglomerado se tornar vila, sob as bênçãos de Frei Eusébio, com festas por todo canto. Nós éramos crianças agitadas e felizes naquela quermesse de interior. Caruru,agora denominada de Vila caruaru, a “Terra da farturado Agreste” Cariri, crescia a olhos vistos, e já tínhamos a nossa igreja matriz, grande e provincial.

   Eu não sabia, na época e durante minha adolescência, que meu pai ainda vivia. Acreditava-o morto, e dele apenas possuía uma miniatura pintada, pois a fotografia ainda não estava em voga, nem mesmo na capital. Ficava horas a olhar a imagem daquele homem, tão parecido comigo: Os mesmos cabelos claros e cacheados, os mesmos olhos verdes. Na imagem meio apagada, ele me parecia belo e nobre. Guardei durante anos a miniatura comigo.

   Quando eu tinha 19 anos, minha mãe adoeceu gravemente.Problemas pulmonares. Cuidei dela o quanto pude, mas bem pouco poderia ser feito naquela época.  Meses antes de completar meus 20 anos, então, ela foi desenganada pelo médico da vila. Mamãe já não saía da cama. Foi quando me confessou que meu pai ainda vivia.

   Eu não deveria procurá-lo, no entanto. Ela fugira dele, pois era nocivo, tão maléfico quanto o seu nome: Hefesto. Fugira para o mais longe possível, ali no agreste. Mas era chegada a hora em que eu deveria retornar ao Recife.

    Na tarde em que morreu, minha pobre mãe contou um pouco de sua trágica história. A voz falhando, entrecortada, enquanto me olhava nos olhos.

   Ela era uma jovem ingênua quando conheceu meu pai, belo e  educado  filho de uma das mais influentes famílias recifenses. Ele jurou amor eterno a ela, e ela acreditou. Entregou-se a ele e se tornou sua amante. Ele parecia realmente amá-la, ou pelo menos era o que ela pensava. Um dia, declarando seu eterno amor, lhe falara de uma doença que carregava consigo.

    Em vão meu pai buscara a cura, até na Europa, nos médicos mais competentes, e nada . Mas foi através de um pai de santo, aqui mesmo em Recife, que veio o alívio para suas dores. Em uma noite de medo, um ritual sob a assustadora Cruz do Patrão, o pai de santo revelou como poderia meu pai ficar curado de seus males. Ele precisaria seguir um tratamento bem peculiar.

   Mamãe contou então que meu pai era um monstro, que se alimentava do fígado de crianças; que possuía um negro velho, e que este o ajudava a capturar os pequenos em um saco,  para então matar e retirar o órgão. Então, meu pai banhava-se no sangue das vítimas, se deliciando no sofrimento das crianças mortas. Minha mãe, ao descobrir isto, sentiu medo e horror em relação ao meu pai: já sabia estar grávida, e resolveu então fugir dele, para impedir que ele fizesse comigo o mesmo que fizera a tantas crianças inocentes.

    Entendi todo o seu medo, e mesmo a sua fuga da capital. Porém  o relato extraordinário me pareceu fantasioso na época, como se os delírios de febre a tivessem acometido naqueles momentos antes de morrer. Não poderia ser verdade aquilo, pois tais monstruosidades não existiam no mundo real no qual vivíamos. Eram lendas e crendices.

   Mamãe me fez prometer, em seu leito de morte, que jamais procuraria meu pai. Que ele era mau, e que eu deveria ficar longe dele. Entregou-me, tremendo, um papel com o endereço de minha tia, sua irmã mais nova. Deveria procurá-la e morar com ela por um tempo, até me estabilizar. Suas últimas palavras, uma oração para que minha vida fosse tranquila e feliz. Entreguei minha mãe à Deus, e parti. O tumulo dela ainda existe hoje na Matriz de Caruaru.

   Vim para Recife cheio de sonhos e ambições. Sempre amei a leitura, poesias e era extremamente romântico. Estava decidido a  cumprir a promessa feita à minha mãe, e fingi simplesmente que meu pai nunca existira. Minha tia me recebeu em sua casa, muito gentil, e me ajudou no que pôde; porém era muito pobre, e logo percebi a necessidade em trabalhar e ter meu lugar. Recentemente a Faculdade de direito de Olinda tomara lugar no centro da cidade, e mesmo pensei que poderia estudar lá; mas era muito caro para mim.

         Então me conformei em escrever minhas poesias e trabalhar no comércio da cidade. Consegui emprego em uma loja do aterro da Boa Vista, uma loja de tecidos e fitas. Peguei meus pertences e me despedi alegremente de minha tia, iria morar bem perto do emprego, em um apartamentinho na Rua Nova de santo antônio,número 200. Era pequeno, mas eu podia arcar com o valor do aluguel.

  Três anos se passaram como um sopro de Deus. Emprego fixo, algum tempo para escrever e ler os poetas românticos, Recife inteira para explorar, sua vida boêmia, talvez sonhar com o amor de uma jovem. Presenciei a visita do Imperador D. Pedro II e de suas filhas, as princesas do Brasil. Era um tempo de modernizações no Recife. Apesar de ter perdido minha mãe, a vida se descortinava diante de meus olhos. Meus olhos dos 23 anos da mocidade, ingenuidade e esperanças.

Estava tão feliz naqueles tempos... mal sabia eu que minha vida iria tomar o rumo inesperado, e se transformar no horror que é , até hoje.

   Volto ao presente, um punhado de areia da praia de Boa Viagem apertado nas mãos, o ódio me revestindo. Nada de bom vem dessas reminiscências, nada de útil em minha vida. As horas passaram, e quase amanhece. Olho para o cadáver da prostituta ao meu lado, já rígida. Quando aquele rapaz bom e sensível se transformou neste arremedo de vida, nesta piada do destino, no monstro assassino que mata para permanecer vivo?

   Eu me levanto, devo ir. Antes que os primeiros caminhantes da avenida cheguem para fazer o exercício diário. Já dera àquela mulher o tempo de velar.  A vida dela chegara ao fim, a minha se estendia pela frente a perder de vista.

   Ando cabisbaixo até o carro. Voltar para meu apartamento vazio, dormir, esquecer um pouco. Restaurar minhas forças, e me preparar para a batalha que virá em breve.

medo medo medo medo medo medo medo.

Lorena

   Acordo no outro dia um pouco confusa, com um riso nos lábios. Sonhei a noite toda com coisas estranhas. Tive um sonho sobre praia, monstros e assassinato que me despertou no meio da noite, e depois, coisa mais estranha ainda, adormeci e sonhei que estava em uma festa, no meio de uma cidade pequena.

   Parecia aquelas cenas de novela de época. Uma cidadezinha, bem quente e ensolarada, com jeito de faroeste... procissão, uma orquestra até razoável,  padre benzendo imagens, danças típicas, crianças brincando. Dois meninos passaram correndo por mim, e atrás deles alguns indiozinhos Eles gritavam “ Vem, Yurupari vem !” para o menino louro que corria à frente do grupo, rindo muito.Que divertido, pensei, e era como se eu estivesse lá de verdade.

   Depois tudo se transformou, e eu estava caminhando pelo que parecia ser o centro de Recife, mas era esquisito, não havia calçamento nas ruas. Que estranho. Eu estava de frente para a matriz da Boa Vista,  e ela me parecia diferente, não tinha escadaria nem calçada. Mas a rua também não tinha asfalto, era coberta por pedras e, em certos lugares, só areia. Comecei a andar, estava voltando para casa. Estava bem empolgada, tinha um emprego, e um apartamento só meu. Enquanto eu caminhava, olhava as pessoas. Carroças, carruagens! Negros carregando o que parecia um pequeno coreto com alguém dentro, fechado como um presente de natal. Era e não era a Rua da Imperatriz,a mesma rua barulhenta hoje, com lojas cheias de tranqueiras e roupas.

   Passei por lojas bem mais primitivas, e nas ruas a maioria predominante era de homens. Alguns me davam boas tardes, e percebi que eu era um homem também, pois as senhoritas me lançavam olhares de interesse.

De repente, algo veio em minha cabeça: uma poesia estranha, que nunca ouvi antes.

   As palavras se formavam com uma facilidade espantosa em minha mente. Tristes, mas não muito melancólicas. Era como uma coisa presa dentro de minha alma, ansiando por sair e ter vida própria.  Apressei então o passo.Precisava chegar em casa e tomar papel e pena (pena?) para transcrever.  Antes que esquecesse de todo, era uma poesia especial.  Cheguei rapidamente à Ponte de Ferro, e estava igual à de hoje em dia , pois é a mesma, acredito; mas a estranheza dos transportes, carroças , cavalos e pessoas em trajes antigos permanecia. Após a ponte, ficava  a Rua Nova. Eu , no sonho, morava na Rua Nova? Cheguei bem em frente a uma casa com vários andares, estreita, de número 200, e eu estava animada. Iria transcrever minha poesia.. Acordei ao som de minha própria voz, murmurando a palavra estranha que ouvi dos indiozinhos: “Yurupari”.

  Eis a razão de ter acordado sorrindo. Fora o sonho mau que tive , os outros sonhos foram incríveis, e fazia tempo que eu não tinha um sonho do qual me lembrasse. Levantei com uma certa urgência, meio em transe, e imediatamente fui para a minha mesinha. Peguei uma caneta e um caderno.

Distante de ti sou como o rouxinol

 Que voa insone pelo céu pungente

 Sou pedra e fogo que queima indolente

 Sou barco que perde o rumo cego ao sol

 Sou alma sem corpo, que vaga descontente

Uma rosa espúria, perdida entre espinhos

Mãos sem afagos, sem beijo, sem carinhos

E que contempla o frio da solidão em um repente.

Noite morta, olhos tristes, vela apagada

O fim de tudo que resta ao ser humano

Me espera decidido, ao fim da estrada.

Estrada que se revela  amargo engano

Finda que não encontro em vida a amada,

Vida minha, da qual não fui soberano.

 

 Levanto o rosto do papel, em choque. Jamais escrevi algo parecido com aquilo. De onde saíra aquela poesia um tanto trágica? Não era minha, com certeza. Um talento que definitivamente, eu não tenho.

   Era uma  escrita rebuscada. Um sentimento ao qual tive acesso pelo sonho,mas que me é totalmente desconhecido. Que diabos?

   Pensei no encontro com o rapaz , e as coisas que ele falou. De como os sonhos poderiam ser um reflexo de algum tipo de realidade. Algo que existe e que aconteceu. Não, isso não pode ser verdade. Não pode!

   Chega. Deixa de ser doida, Lorena. Imaginação tem limites.

  Não precisava sair tão cedo, então dei um tempo em casa, assistindo alguma coisa, a cabeça longe. Minha mãe falava sem parar na cozinha, algo sobre como Recife estava violenta, que mataram uma mulher na praia e que a estriparam. Mas não prestei muita atenção; já estava começando a me organizar para sair de casa.

   Cheguei na hora certa na faculdade. As meninas não pareciam lembrar ou dar importância ao que acontecera no dia anterior, então eu comecei a me sentir bem. Fazer as tarefas das aulas nunca me pareceu tão relaxante, tão tranquilo. Eu apenas queria esquecer todo o clima de estranheza da realidade que me impactara desde o dia anterior.

   Nunca fui uma pessoa surtada. Fora meus sonhos e ocasionais problemas escolares, fui uma criança calma. Sofri um pouco de bullying na escola, mas aprendi a sobreviver a isso, como todo mundo. Nunca fui muito popular ou requisitada, na minha adolescência, tive um ou dois namorados, mas nunca deixei que passassem do limite. Não sabia o porquê, se por causa daquele sonho estranho, porque nunca nenhum rapaz conseguiu se comparar ao jovem dos sonhos, ou se simplesmente eu era uma pessoa fria e sem sentimentos.

   Eu tive e tenho minha cota de pessoas interessadas, é claro, mas nada que me mova  a sair de minha zona de conforto. Olhei para as meninas que estavam concentradas na explicação da aula. Anne e Luciana. Conheci as duas na faculdade, e nos tornamos companheiras imediatamente. Somos as três tão diferentes, que não dá para entender como gostos tão diversos nos aproximaram, mas é a verdade.  Anne era expansiva, hedonista, adorava comer e namorar. Já não era virgem a tempos, e isso não a incomodava em nada. Estava quase sempre tagarelando a respeito de um ficante, das noitadas e diversões.

   Luciana era um pouco parecida comigo, de comportamento diametralmente contrário ao de Anne. Era evangélica, nunca tivera um namorado e acreditava no amor verdadeiro. Que havia um rapaz especial nascido para ela, em algum lugar. Apenas torcia para que ele fosse evangélico também, e de sua igreja, de preferência. As vezes nós duas ficávamos fascinadas pelas histórias picantes de Anne, mas aquilo não era muito nossa cara.

   Já eu era mais quieta por conta da autopreservação mesmo. Não queria me decepcionar com alguém, esse era meu maior medo em uma relação. Então eu acabava os namoros antes que ficassem sérios demais, próximos demais. Não era uma limitação religiosa, por esperança, como a de Luciana. Era, sim, uma limitação de minha própria mente. Eu não conseguia superar meu primeiro e único amor, desde a infância: aquele rapaz torturado vezes e vezes em meu sonho.

   Quando criança eu imaginava o dia em que iria conhecê-lo, como se fosse a encarnação de um príncipe encantado. Era um sonho assustador, mas eu acreditava que ele existia, em algum lugar, para mim.

   O pensamento me levou para o dia e a noite anterior. O encontro com aquela pessoa tão parecida com o rapaz de meus sonhos, o desmaio, foram simplesmente as coisas mais estranhas que já aconteceram em minha vida. Ainda tenho a vívida sensação de ser dominada por ele, de sua força sobrehumana, das estranhas visões de monstros e fantasmas que vivenciei. As mortes de jovens coincidentes com o fato, também eram assustadoras. O medo ainda estava presente,  e o sonho que tive durante a noite inteira não me tranquilizou. Aquela poesia rebuscada...

   Olhei ao redor da sala, luz da tarde entrando pelas amplas janelas. Pessoas rindo e conversando, arrumando as mochilas. A realidade de repente me parecia surreal. Eu estava enlouquecendo.

- Que foi, Loli?- Luciana veio e alisou meus cabelos, preocupada. Aquele jeito meigo e meio tímido dela me fez querer confiar minhas dúvidas.

Eu a olhei, a agonia nas feições.

- Lu, eu não sei o que fazer. Desde ontem estou meio que passando mal, tive uns sonhos estranhos. E teve aquele desmaio meu, estou com medo de que algo muito errado esteja acontecendo, eu...

  Ela parecia confusa, como se não conseguisse entender minha preocupação. Eu me vi como ela, dois dias antes, e percebi que ela não podia me ajudar. Por dentro eu estava frustrada, mas sorri para ela

 - Deixa pra lá, Lu, eu devo estar preocupada à toa. Deve ser minha TPM.

 - Isso, amiga, talvez esteja dormindo pouco, estudando muito, esquentando a cabeça por bobagens. – Ela  parecia aliviada.- Sabe? Às vezes não vale a pena esse estresse pela faculdade, e você precisa relaxar um pouco. Amanhã você devia ficar em casa, dormir até tarde, não se preocupe com as faltas, eu assino a ata de presença da aula por você, pode deixar!

  Me senti grata por esse gesto, pois Luciana não gostava de mentir, e se ela estava passando um pouco por cima de suas próprias regras morais, era porque se preocupava comigo de verdade, e queria que eu melhorasse.

   Mas eu não sei se um dia de molho em casa iria resolver meus problemas. Pois o problema não estava só em mim. Eu sentia que algo estava vindo, como uma avalanche, ou uma bola de neve que crescia e crescia sem que  eu a visse. Talvez eu fosse esmagada por tudo, pelo invisível, antes mesmo que pudesse me proteger ou fugir.

 

 

 

Cristiano

     Uma manhã sem sonhos, como habitual. Me senti muito bem , ao acordar. Estivera exausto, dormi como uma pedra e já eram quinze horas! Olhei meu reflexo no imenso espelho do banheiro. Um rosto jovem bonito e de aparência despreocupada me olhou de volta. Nada dizia em meu reflexo sobre o quão demoníaco eu podia ser. Era apenas um rosto, aparentando vinte e poucos anos, cabelos louros, olhos verdes expressivos. E em nada parecido com o cadáver ambulante que matou a mulher na véspera.

 Sempre pareço e fico  melhor quando me alimento. Recupero minhas feições, minha força, mas o preço é bem alto. Não tenho opção alguma quanto a isso... Posso comer comida humana, mas ela não me nutre, apenas o fígado fresco tem essa propriedade. E só fígado humano. Quanto mais jovem a vítima, mais rápido e melhor me recupero, porém nunca consegui assassinar crianças, como meu pai fazia. Mato quando necessário, e apenas adultos. O resultado é que os efeitos do bem-estar são menores, mais fracos, e eu vivo no limite de minhas forças.

   Me barbeio, e tomo um banho longo.  Meu apartamento é um refúgio no meio de tudo, onde guardo meus livros raros, minhas obras de arte mais seletas. Para  um grupo reduzido de conhecidos, sou um jovem proprietário herdeiro de uma loja de objetos antigos, uma loja que passa de pai para filho. Uma longa linhagem de antiquários. Graças aos tempos modernos, criei o site da loja com vendas on line, terceirizei os serviços e otimizei as entregas e compras, o que me rende uma liberdade acima do normal. Não preciso tomar a frente, sequer aparecer. Tenho empresas que administram e apenas checo as contas de entrada e saída de dinheiro. Tudo muito impessoal, do jeito que quero e preciso.

   Aqui em minha casa, guardo as coisas mais valiosas, o que para mim representa alguma lembrança. Minhas primeiras edições de literatura e as poesias que aprecio; quadros, louças, objetos lindos que comprei ao longo das décadas. Ainda saindo do boxe, olho rapidamente para o espelho. A coisa mais preciosa que possuo, no entanto, não fica guardada no apartamento ou na loja: levo comigo o tempo todo. Em uma corrente de prata, no meu pescoço, o crucifixo de Beatriz. Nunca o tirei, ao longo destes 155 anos.

   Ainda enrolado na toalha vou até a cozinha impecável. Praticamente intocada, pois eu não preciso comer.  Apenas de vez em quando sinto vontade de provar algo, e mesmo assim vou a algum restaurante, para ter a sensação de ser alguém, um ser humano igual a tantos outros. Minha geladeira está vazia, exceto pela caixa de cápsulas de café.

   Ligo a máquina e insiro a cápsula, programo o tempo certo. O cheiro de café novo invade minhas narinas. Não sinto necessidade de comer, mas sempre adorei um bom café.

   Bebo da xícara fumegante, usufruindo o aroma e sabor, enquanto olho o jornal do dia. Uma pequena notícia na página de ocorrência policial sobre a prostituta morta, e só. Nesta cidade tão imensa, a morte da mulher é apenas uma gota no oceano.

   Hoje eu preciso pensar com praticidade. Se tudo der certo,  estarei à frente do maldito Visconde e do Cabeleira. Caso não consiga, bem... não posso pensar em não conseguir, não posso deixar Beatriz ir para o limbo novamente, ou pior: Ficar prisioneira em Evoé à serviço do Rei.

   Aperto a xícara entre os dedos. Não mais servirei ao Rei Cabeleira e seu mundo distorcido. Ele que encontre outro idiota para abrir os portais de Evoé para ele. Aquele que se dizia meu pai foi o último da linhagem. Não eu.

   Mas com certeza, Cabeleira estava a tramar algo. Decerto que Evoé não podia mais ficar fechado e à mercê de corpos temporários da “Loja” de Alberto. Cabeleira queria de volta as glórias do passado, quando as assombrações andavam livremente pela cidade em seus próprios corpos. Isso eu já sabia a mais de 100 anos atrás. O que me pareceu um ponto final, nada mais fora que uma trégua.

   Terminei o café e lavei a xícara. Eu ainda não sabia como seria falar novamente com Lorena, e a reação dela.  Apesar de nosso encontro súbito, não podia mais esperar, nem ser cavalheiro, ganhando a confiança dela aos poucos.  Mesmo contra a vontade dela, mesmo à força, por bem ou por mal, ela virá comigo hoje.

   Saí ao final da tarde, o sol incomoda um pouco menos. Usar roupas com capuz ajudam a proteger também, caso contrário não suportaria o contato do sol em minha pele. A garagem do prédio é bem protegida da luz, e o carro tem um filme potente nas janelas. Estava na hora, e ainda teria de esperar o momento oportuno .

   Dirigi o carro até o bairro dela. Sabia que ela viria de ônibus da faculdade, e sabia exatamente o caminho que ela tomaria. Parei o carro na esquina de sua rua, uma rua pequena e pouco movimentada. Já estava escurecendo. Ela demora a chegar, minha impaciência está no limite.

    Uma hora depois, eu a vejo . Parece bastante cansada, e anda devagar. Espero ela chegar perto do carro. Então a chamo.

  - Lorena.

  Ela se sobressalta e vejo o medo nos seus olhos. Isto tem o poder de me magoar, e ao mesmo tempo, enfurecer. Ela tem medo de mim? Eu, que estou tentando salvá-la?

- O que você quer de mim? – Ela meio que dá um pulo, mas não é tão rápida quanto eu. Seguro seu pulso.

- Você precisa vir comigo, Lorena. Não pode mais ficar à mercê do que a está buscando. - Passo a mão nos cabelos, é muito frustrante. Ela tenta se soltar, e se eu apertar um pouco mais, quebro-lhe o pulso. Puxo-a para perto de mim .

- Me solte! Eu vou gritar, seu maníaco -  Ela se retorce, e com certeza isso vai lhe render escoriações no dia seguinte. – Quem é você? Que tipo de doido stalkeador é, que fica me esperando na esquina de minha rua!

- Não sou doido, Lorena, estou tentando salvar sua vida!

- Socorro! - Ela grita e tenta se soltar com mais força ainda. Do outro lado da avenida, algumas pessoas olham, curiosas. – Me largue !

  A rua é pouco movimentada e escura, mas avenida à qual ela se liga tem movimento. Daqui a pouco, iriam atravessar para saber o que acontecia. Resolvi então tomar uma atitude . Eu a puxo com força contra meu corpo e a beijo.

   Mas não é um beijo. Preciso que ela se cale, e roubo um pouco de sua energia. Ela parece surpresa, se debate, mas à medida que a enfraqueço, ela se entrega em meus braços. Com o canto do olho, observo que as pessoas , antes desconfiadas, parecem acreditar que somos um casal em reconciliação. O corpo de Lorena tomba em minha direção, pesando, e eu a amparo, ainda com os lábios colados aos dela. Ela está inconsciente.

   Relutantemente, termino o beijo. Sinto medo de machucá-la, mas ao mesmo tempo, poder tocar seus lábios me fez sentir coisas por tanto tempo adormecidas. Eu a abraço, e como precisava sentir meus braços ao redor dela.

    Cuidadosamente, usando minha força , suspendo-a e a coloco no carro, sem levantar suspeitas. A energia dela flui por meu corpo, mas não me sinto feliz com isso. Não queria precisar tomar esta atitude, e sei que isto dificultará ainda mais o nosso entendimento. Como ganhar a confiança dela, se agora ela vai me enxergar como um monstro? Talvez ela esteja certa em pensar assim, constato amargamente.

  Coloco-a delicadamente no banco do passageiro e prendo o cinto de segurança. Ela inclina a cabeça, adormecida e indefesa, o que me faz sentir ainda mais canalha. Me preocupo com o que a mãe dela vai pensar, e as amigas. Como poderia ser diferente? Não poderia.

   Decidido, entro no carro e rumo para meu apartamento, levando minha carga preciosa.

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Lorena

   Estou confortável. Como se fosse pequenina, minúscula, e afundasse em um pacote de algodão. È uma sensação de ser engolfada mas, ao mesmo tempo, protegida. Não quero acordar. Pouco a pouco, desperto. E não estou em um lugar conhecido.

   Sento na cama, a confusão do sono sendo substituída por um sentido mais alerta. Passo a mão nos lençóis sedosos, que não são os de algodão de minha cama. Aliás, aquela cama grande não é a minha modesta cama de solteiro. Estou em um quarto amplo e clean. A cama enorme e confortável, Um guarda roupa discreto espelhado e embutido. Mesinhas. Um quadro lindo na parede da cama.

   Vejo meu rosto assustado nos espelhos. De repente, percebo que estou usando uma camiseta larga, minha calcinha. E mais nada. Olhando ao redor, vejo minhas roupas cuidadosamente dobradas em uma cadeira. E quem as tirou de mim? Quem me vestiu com esta camisa? Meu rosto fica vermelho de vergonha

   Deus, onde estou? O que aconteceu comigo?

   Aos poucos a memória volta. Voltava da faculdade, e fui parada por aquele homem. Eu fui sequestrada. E Ele me beijou.

   Não, não foi um beijo. Eu começava a lembrar. Ele colocou os lábios nos meus, mas a sensação que eu tive foi a de uma revolução em meu corpo, em meu coração, em minhas veias. Nunca antes sentira algo assim. Ao mesmo tempo, eu sabia que aquilo não era um beijo comum,ou melhor, não era um beijo em si. Não algo romântico, carinhoso ou belo, e sim um ataque, algo para me dominar, enfraquecer, subjugar.

   Tentei lutar contra, mas ele era infinitamente mais forte que eu. Então aquela súbita letargia me dominou,apaguei completamente. E acordei aqui.

   De repente, batem à porta do quarto, dou um pulo. Me cubro com o lençol e com os olhos procuro algo para me defender. Não tem nada ali. Percebo na hora que não há telefones, meu celular e minha bolsa não estão ali. Como sou burra, deveria ter procurado logo algo para me defender, e agora estava ali, à mercê de o que viesse.

   - Com licença - A porta entreabriu. Ele não entrou de todo.- Está composta? Posso entrar?

  Ahaha essa era nova, um sequestrador educado. Eu estava apavorada e o riso saiu nervoso. Mas não ia deixar ele perceber o quanto estava com medo. Me recompus.

 - P...pode entrar.

  Ele parecia cauteloso ao entrar. O quarto estava meio que na penumbra, era ainda dia lá fora mas a luz não entrava diretamente. Então ele girou o comutador de luz.

   Meu coração acelerou. Eu realmente nunca o vira sem estar bem perto, ou envolvida em alguma situação emergencial. Não nas duas vezes que nós nos encontramos. Eu tivera a impressão de ele ser parecido, lembrar aquele jovem dos sonhos. Algumas pessoas se parecem umas com as outras, não?  Mas olhando-o naquela iluminação, a uma distância de alguns metros, pude reconhecer a pessoa com a qual sonhei durante toda a minha vida. Literalmente. Era ele. Não alguém parecido, não.

  Alto, cabelos louros cacheados, olhos verdes, com uma tonalidade escura. A boca bem delineada, quase feminina. Aquele rosto me perseguira vezes e vezes sem conta, noites e mais noites. Ele era o rapaz dos sonhos. Usando roupas modernas. Exatamente, não; fisicamente era o mesmo, mas havia algo diferente na expressão do rosto, que eu não sabia precisar. O rapaz de meus sonhos parecia doce e vulnerável, mas este à minha frente lembrava algo selvagem, e muito perigoso. Como se, sob a superfície agradável, morasse algo escuro e assustador.  Me retraí com um medo inexplicável.

   Ele parecia cauteloso, mas ao perceber minha reação, se empertigou. Uma expressão fria estava em seu rosto , agora.

   - Não precisa ficar deste jeito, não vou machucar você ou coisa parecida.

    Coloquei as pernas para fora da cama, pisando no chão: - você me raptou.O que quer, dinheiro? Não sou rica.

  Ele levantou as sobrancelhas, surpreso. Me senti uma idiota. Estava em um apartamento elegante e aparentemente muito caro. Quem morava ali não precisava sequestrar ninguém por dinheiro. Ele me olhava, de braços cruzados, com um riso mal disfarçado nos lábios. Fiquei mais envergonhada ainda, e com raiva.

   - Eu falei ontem para você. Está correndo um perigo enorme, e não faz ideia. Então trouxe você para cá, onde posso protegê-la.

   - Mas eu... Escute – abri as mãos na direção dele.- eu não sei quem você é, você apareceu do nada na minha frente falando de monstros e coisas estranhas. E você me sequestrou! Eu... só quero voltar para casa, para minha mãe!

   Ele ficou irritado, andou em minha direção e eu recuei, com medo.  Na mesma hora ele se refreou. Fez um gesto de conciliação com as mãos:

  - Me perdoe, Lorena, me perdoe por ter trazido você à força para cá. Mas estava já muito perigoso, eu não poderia deixar você dormir em casa hoje. Eu sei que estão perto, talvez já tenham encontrado você.

   Irritada, eu saí da cama , nem mais me preocupava com a roupa, ou ausência dela. Sem pensar,avancei nele:

 - Você parece um maluco! Um psicótico que me  sequestra na noite , com essa conversa de gente doida, ninguém está atrás de mim. E eu nem sei seu nome, de onde diabos você saiu, o que...

 - Você sabe muito bem quem eu sou. – ele me pega pelos ombros, sério. – sonha comigo todos os dias de sua vida.

   Se ele queria minha atenção, ou se queria me fazer parar, conseguiu.

 - Eu... como sabe...

 - Lorena, você sabe meu nome.

Ele me olhava dentro dos olhos. Era verdade. Eu sabia o nome dele. Sempre soube.

 - Cristiano...

- Apenas me escute. Nunca teve curiosidade por saber de onde vinha o mesmo velho sonho, vezes e vezes sem conta? O sonho que te persegue desde criança?

  -  Sim, mas...

 Ele me pegou pelos pulsos, mas sem apertar. Delicadamente.

  -Tenho todas as respostas que você busca.

Isso era loucura. Eu afundava cada vez mais em uma situação fora do normal. Se fosse verdade, tudo em que eu acreditara até ali seria uma mentira. Cristiano parecia estudar meu rosto e a guerra interna que se travava por detrás dele. Metade se apegava ao fato de eu ter sido sequestrada, que este cara – Cristiano - nada mais era que um doido psicopata ou assassino serial. A outra metade sabia que eram coincidências demais, semelhanças demais. Esta metade temia por minha sanidade mental.

   Eu ainda estava confusa, então ele me soltou. Puxou de dentro da camisa um colar de ouro. Nele havia dois objetos brilhantes.

- Reconhece isto?- me perguntou. Eu não sabia o que era. Um anel e um crucifixo?  Neguei com a cabeça.

- Nunca o tirei.- Ele disse, simplesmente.- Ao longo destes 155 anos, sempre esteve comigo. Foi seu. Em uma outra vida. Um outro mundo.

   Ele se aproximou mais. Cauteloso como desde o início, pisando suave. Quase imperceptível. Seus dedos no meu rosto, afastando os meus cabelos desalinhados, segurando meu rosto em suas palmas como se fosse uma coisa preciosa, parecia algo saído de meu sonho.

   Perdi momentaneamente o sentido do que era real e o que poderia ser imaginário. 155 anos? Isso era figurativo ou literal? Mais perto, as,mãos quentes em meu rosto, me afogando naqueles olhos sem fim. Eu estava paralisada.

   Então ele me beijou.

   Não foi aquele ataque do dia anterior. Não estava tentando me subjugar, me dominar. Era um gesto de carinho, e uma saudade que eu podia quase tocar. Em um beijo ele tentava diminuir esta separação, esta sensação de solidão, de anos distantes um do outro. Era uma ponte para o passado dele, uma busca por algo que ele acreditava estar dentro de mim.

  Um beijo apaixonado como jamais eu recebera antes de alguém.

Mas a minha metade incrédula não queria, não poderia se deixar levar. A boca dele ficou mais exigente. O beijo se tornava mais intenso, eu estava à deriva de sensações que nunca experimentara, mas aquela voz de minha consciência teimava em me puxar para a realidade, para a vida real. Esse homem era louco, a voz me dizia. E pode matar você. Quem sabe ele é o psicopata quue mata as moças?

Tentei empurrá-lo, afastá-lo de mim. - Não, me largue!

Parecia que eu estava empurrando uma pedra. Ele levantou a cabeça, surpreso. Por um momento eu vi seu rosto relaxado, parecendo quase o rapaz dos sonhos, um pouco ingênuo. Aproveitei a confusão dele para me soltar.

 - Que loucura é essa? Isso não pode ser verdade, eu quero, não,eu exijo que me deixe ir! – Passei as costas das mãos pela boca.- Não quero mais que me toque!

   Ele ficou tenso e afivelou no rosto a máscara de antes. Quase pude ver seus olhos ficando vermelhos, os riscos negros cruzando sua face. Por um momento, ele pareceu perigoso e capaz de me matar, realmente. O rapaz gentil sumira sob a verdadeira persona.

   Ele me deu as costas , como que para se recuperar.

- Você... fica. – Respirou fundo e pesadamente.- Fica aqui, mesmo que não queira. Não importa.

   Então eu fiz uma loucura. Tentei correr para a porta do quarto, sem me importar se estava só de camiseta e calcinha, queria apenas fugir dali, e se eu conseguisse chegar na porta da frente, correr para fora e gritar por socorro...

  Não cheguei nem na porta do quarto. Ele se moveu incrivelmente rápido , e com uma força sobrehumana. Fechou a porta, espalmando as mãos nela e me prendendo entre seus braços. Eu não tinha como fugir dali.

- Você fica aqui. Lorena. Vai se acalmar. Quando estiver pronta, eu lhe mostrarei o que precisa saber, e então vamos lutar contra o que quer que venha tentar nos destruir.

- Eu vou fugir, vou gritar, quero ir embora! Seu louco, me deixe ir !

Ele respirou fundo,e me olhou friamente:

- Pode tentar, à vontade. Se quiser fugir pela janela, são 27 andares até o chão. Aqui não há telefones, nem seu celular, nem nada. Se gritar - Um riso cruel passou por seu rosto – ninguém vai escutar. Este apartamento é a prova de som, e estamos na cobertura. Acesso privativo. Ninguém pode ouvir você , ou chegar aqui sem a chave apropriada.

 Então ele me segurou pelo pulso. Me empurrou para longe da porta.

- Tentei mostrar a você, ser gentil com você,mas não funciona, não é? Então você será minha prisioneira, Se este é o único jeito. – Ele fez menção de sair do quarto.

- Minha... mãe – falei, quase sem voz.

- Vou mandar um email para ela – ele me respondeu laconicamente.- Não se preocupe com ela. Preocupe-se com você, apenas. Estarei do outro lado da porta.

 E saiu do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos e minhas preocupações.

 

Evoé

   Noite alta. A criatura anda,meio desconjuntada, pela rua, rumo à Ponte da Torre. Quem o vê, pensa ser um mendigo, portador de alguma doença estranha. Ele segue andando, passa pela ponte, Rua Amélia, e chega claudicante à Avenida Agamenom Magalhães. Anda e anda, afastando as pessoas tanto pelo cheiro ruim, quanto pela aparência decadente. “Mais um pouco, mais um pouco” resmunga para si mesmo.

   Avenida João de Barros, Rua do Príncipe. Andar lhe é penoso, mas ele precisa chegar ao seu destino. Passa pela frente da Faculdade de Direito do Recife, atravessa a Ponte Princesa Isabel. A noite já se faz alta madrugada. O movimento do centro da cidade cai .  Mais uma ponte, e avista os armazéns de açúcar do porto. Envereda pelo forte do Brum, sentindo as articulações daquele corpo emprestado já a enrijecer. Ainda bem que conseguira chegar até o local.

   Se arrasta até a imponente e assustadora Cruz do patrão. Lá estava Alberto, a sua espera.

- Mas que demora, Valdemar!

A criatura se retrai – Não me chamo mais assim, não mais, você sabe.

- Sim, sim – Alberto parece entediado – Já está na hora de tirar esta carcaça podre. Vamos! Está com o frasco do sangue de Hefesto?

   O monstro saca de dentro do bolso da calça um frasco, com uma quantidade limitada de sangue dentro. O frasco está quase vazio, e ele bate contra a palma da mão para conseguir tirar algo de dentro. O pouco sangue que extrai, passa trêmulamente na Cruz. Um feixe de luz , e o portal se abre, impressionante.

   Para um observador que desconhece, é algo aterrador. Como uma cidade flutuante no céu, uma cópia fantasmagórica do Recife Antigo e Santo Antônio. É imenso, pesado e ao mesmo tempo, etéreo. O ponto de ligação entre o mundo de cima e o de baixo é o feixe de luz cegante que envolve toda a Cruz do Patrão. O feixe de luz é inconstante, e parece desvanecer, algumas vezes.

 - Vá – Diz Alberto – Largue logo esta casca ai, e suba. O Rei está impaciente para saber o que demorou sete dias para ser descoberto.

  O corpo cai ao chão, decomposto. O que estava dentro se fora.

   Alberto recolhe os dejetos. Não era um trabalho agradável, mas alguém tinha de fazê-lo. Para isto a sua loja servia, a mais de 150 anos. Esperava que Sua Majestade estivesse satisfeito com tudo, e que o seu plano, enfim, funcionasse. Todo aquele tempo sem um Liminar, e o sangue de Hefesto já estava no fim . Em breve, nem aquele tênue portal poderia ser aberto. A menos que ele conseguisse o Porteiro.

 

 

 

        

 

 

         

 

 

 

 

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Boca de Ouro

     Boca de Ouro sentia-se um pouco menos miserável na sua forma etérea. Ao contrário de tantas assombrações do Recife, gostava do exílio de Evoé. Talvez pelo fato de, sendo uma assombração mais moderna, nunca ter saído dos umbrais sem ser em um corpo emprestado. Recordava ainda do começo de sua existência sobrenatural,  quando havia sangue de Hefesto em quantidade e podia até mesmo achar graça nos cadáveres que usava a guisa de roupas,  para assustar.

      Ao se arrastar para fora das águas do Capibaribe onde fora lançado, da morte em direção à sua vingança sangrenta, usava seu corpo original. O corpo de Valdemar, o idiota corno que se deixara levar pelas promessas de  amor e mentiras de Guilhermina. E como fora doce, terrível e arrebatadora a vingança!        Após premiar devidamente os culpados com a obliteração, tornara-se definitivamente o Boca de Ouro. Nunca uma alcunha fizera tanta justiça para seu portador.

       Cabeleira fora precavido. Havia estocando o sangue do Papa-Figo, antes de seu desaparecimento. Não era fácil encontrar um Liminar, e Hefesto fora praticamente coagido a deixar frascos cheios de seu precioso sangue em Evoé, por precaução. Sem o sangue, não havia sequer a possibilidade de abrirem os portais. A contragosto, Hefesto enchera os frascos , pois devia obediência à seu Rei. Boca de ouro pensou, um pouco surpreso, que  jamais conheceu Hefesto. Mas que usufruíra por mais de cem anos de seu sangue, nos portais.

    Ele mesmo surgira como assombração depois do desaparecimento de Hefesto, e nunca antes vira de perto um papa-figo, até aquele momento, com aquele jovem Cristiano. Danado de bonito, murmurou para si mesmo, amargurado. Valdemar nunca fora bonitão, nem em vida, e menos ainda após a morte. Mas ele gostava de sua própria aparência putrefata. Queria especialmente que aqueles planos de Cabeleira dessem certo. Se voltasse à cidade, que fosse com seu próprio corpo gloriosamente podre, e não usando a carcaça de um humano mortal qualquer. Isso valeria a pena, ô se valeria. Entregaria a cabeça da própria mãe em uma bandeja, para conseguir encarnar no próprio corpo materializado.

 Subindo pelo portal tênue, Chegou à cidade-fantasma. Andou ligeiro pela ponte do abismo de Evoé. Ali era Recife, e não era. Um mundo sobrenatural para seres sobrenaturais. Os pesadelos andavam à solta pelas “ruas”, em suas formas e tamanhos variados. Os prédios tinham estranhas formas, como se a alma de Recife tivesse sido capturada e moldada de forma retorcida pelo demônio em pessoa.

    A noite era sem fim, e havia uma espécie de euforia carnavalesca e violenta em todos os cantos. Almas desencarnadas, assassinos, monstros, assombrações passavam por ele. Todos aqueles que não encontraram paz no paraíso, à sombra da mão de um Deus misericordioso, ali estavam. Eles escolheram suas vidas e mortes violentas, e suas histórias garantiram a presença naquela cidade amaldiçoada.

   Era Santo Antônio e Recife Antigo, os primeiros bairros juntos e no formato de um antebraço e punho raivoso... As pontes também estavam lá presentes, mas ao contrário de suas gêmeas no mundo real, que serviam ao nobre propósito de interligar e unir a cidade, em Evoé, davam para o abismo.

    Boca de Ouro gostava daquela desordem. Refletia seu próprio interior caótico, e se este caos pudesse voltar a reinar também na cidade de baixo, se todas as assombrações pudessem de novo andar livremente por lá... Ah!!!

   Ele contemplou os prédios disformes, duplos sórdidos dos originais. Tudo em dobro ali havia: praças, casas, sobrados, jardins. De suas próprias formas, mas sempre guardando as semelhanças.

Em Evoé, apenas duas coisas destoavam: A ausência de uma duplicata da Cruz do Patrão e a presença do Cemitério. 

   Sim, bem no meio de tudo, próximo à réplica do forte do Brum, estavam os muros e portões do campo santo de Santo Amaro das Salinas.

   Era o primeiro cemitério, aquele que fora construído em 1856 para abrigar os cadáveres das vítimas da cólera que transbordavam das catacumbas das igrejas.  Menor, mais austero, e apenas com quatro alas.

   Boca de Ouro passou pelos arcos e anjos lacrimosos do portal negro, e se encaminhou para o centro de tudo. Ali havia, no lugar da capela, uma imponente construção. Poderia ser chamada de mansão, mas lembrava mais  um mausoléu intrincado e gigantesco. O cemitério nada mais era que o jardim decorado daquele castelo peculiar.

   Andou mais rapidamente, admirando as flores noturnas que brotavam junto aos túmulos adornados por anjos, santos barrocos disformes e cruzes de mármore enegrecido. Cabeleira escolhera a dedo a sua guarda e seus vassalos, entre todos os moradores de Evoé. Ele se sentia honrado em ser um dos braços direitos do Rei.

     Se aproximou dos portões altos, esculpidos com relevos, um motivo intrincado de homens caindo em uma espécie de fogo infernal. Era bonito e aterrorizante, ao mesmo tempo. Cabeleira tem bom gosto. Boca de Ouro deu uma risada que parecia um guinchado.

- Abram – Falou, para os dois guardas da porta do enorme mausoléu.- Trago notícias da moça e do Papa-Figo. O Rei precisa saber imediatamente.

 

   Lorena

   Ele bateu a porta ao sair, frio e raivoso. E eu estava só, naquele quarto imenso.Senti vontade de gritar,quebrar algo, mas não seria inteligente de minha parte. Procurei mais uma vez um telefone, em vão. Testei a maçaneta, e a porta estava trancada. Por que não estava surpresa, não é mesmo?

    Andei até a janela com pesadas cortinas. Havia uma cortina em um tecido adamascado e espesso, de cor marrom dourada, e por baixo uma cortina corta luz .  Quem dormia ali definitivamente não gostava da luz do sol.

   Ao abrir a cortina e olhar, percebi que era de tarde. Eu dormira por quase 20 horas seguidas!  O sol já arrefecia, e a tarde suavizava para a chegada da noite. Estávamos realmente bem alto, ele não mentira.Não tinha jeito de fugir por ali, a não ser que suicídio pudesse figurar como fuga.

   “Sem corda de lençóis então” pensei, amargamente. Que piada eu era, achando que poderia sair dali.

   O que ele queria de mim? Já conseguira me sequestrar, e eu estava à mercê dele, trancada naquele quarto. Talvez, se eu encontrasse algum objeto cortante e o escondesse, pudesse feri-lo, roubar a chave e ir embora dali.

    A história que ele contara era, dentro dos padrões ditos normais, um tanto fantástica. E ele parecia alguém muito perturbado. Eu tentava me convencer de que era tudo mentira, mesmo encontrando o eco de meus sonhos por toda a vida gritando que era verdade.Não podia ser verdade, podia?

Fui até a porta novamente e colei o ouvido nela, tentando decifrar algum barulho lá fora.Nada. Parecia haver uma música abafada, mas eu também poderia estar enganada.

   Olhei ao redor. Que não havia telefones, eu sabia. Se ele tivesse saído do apartamento, isso me daria um certo tempo de achar uma brecha, algo que pudesse feri-lo. O Guarda–roupa espelhado, bom. Podia quebrar o espelho e pegar um pedaço, se fosse necessário. Ao lado do guarda-roupa, havia uma estante também embutida, e uma escrivaninha com uma cadeira. Duas mesinhas decoravam perto da janela, de cada lado da cama, cada uma com um vaso de aparência cara e delicada.

   “Um quarto de revista de decoração”, pensei. Fiquei curiosa. O armário de espelhos era lindo, com uma larga porta de correr e uma outra porta menor, ao lado.

   Abri o guarda roupa, a larga porta e lá estavam muitas roupas de bom gosto, calças, coletes, camisetas dobradas cuidadosamente, jaquetas. Um cheiro bom saía delas. Roupas muito bem cuidadas, algumas com capas de lavanderia. Um armário masculino comum, creio, claro que pertencente à alguém refinado. Ok. Não iria revirar as gavetas. Eram 3. Abri cuidadosamente cada uma para olhar, por alto. Nada de mais. Roupas, meias.

     Fechei as gavetas e a porta de correr. Ainda tinha a outra porta,menor, que devia guarda roupas de cama. Abri.

    Na outra porta do guarda-roupa, havia o que me pareciam ser  roupas de teatro, à primeira vista, ou fantasias. Poucas, mas de diversas épocas. Quê?

   Me detive para examinar. Não eram fantasias. Aquela porta do armário tinha um cheiro mais forte, de coisa guardada e velha. As roupas eram vintage. Todas (cerca de 15, mais ou  menos) estavam protegidas por capas de plástico grosso. Abri alguns, deslizando os dedos nas dobras de tecido. Roupas no estilo dos anos 80, 70. Usadas. Tinha um terninho listrado cuja camisa, amarelada, me parecia muito, muito velha.

   Abri o saco de roupa seguinte, e era um costume parecido com os de filmes de época. Filmes do tipo “ O Morro dos Ventos Uivantes”, ou “Orgulho e Preconceito”. Sobrecasaca, uma gravata elaborada ,colete de cetim ou seda, não sabia: ao passar a mão pela camisa quase fragmentada,  jurei te visto uma mancha acastanhada, que parecia sangue seco.

   Tirei a mão da roupa como se ali tivesse uma cobra. ERA SANGUE. Estava pelo colete também, escuro, endurecendo o tecido em algumas partes. Respirei pesadamente. Temerosa, Fechei os sacos com cuidado, tentando deixar tudo do jeito que encontrara. Tinha algo muito, muito errado ali.

   Ainda pensava em encontrar uma arma para me defender, mas a curiosidade falava mais alto quando me dirigi à estante .

   Espalhadas sobre a superfície da escrivaninha, estavam contas, anotações em uma letra elegante. A letra dele. Uma trava moral passou por minha mente, de não mexer nas coisas dos outros, mas ignorei. Eram contas, anotações sobre ... antiguidades? Um sequestrador de bom gosto, educado e amante das artes, nossa.

   Em um bloco, estavam rabiscadas algumas frases, e li, meio que fascinada. Eram horários do dia. Meus horários. Meu próprio nome estava ao lado de cada um deles. Na ultima linha, uma frase sublinhada: “Alertar à ela!” Não encontrei mais nada escrito. Mas, ao canto, perto de um porta canetas, estava um abridor de cartas. Parecia antigo e afiado. Eu o peguei.

   Então, meus olhos foram atraídos para a estante. Muitos livros. Alguns pareciam relíquias, outros, encadernados naquelas capas azuis com lombada dourada gravada à mão. Li os títulos, hipnotizada.

   Obras Completas de Edgar Alan Poe. Les Fleurs du Mal. A Lira dos Vinte Anos (este parecia muito, muito velho e bastante manuseado). Lady Chatterley's Lover (esse também velho).

   Havia alguns livros muito estranhos, sobre magia e misticismo. Papus, Franz Bardon,  Algo sobre Véu de Ísis (seja lá o que for). E uma edição encadernada, grossa, de “A Emparedada da Rua nova”,  de Carneiro Vilella. A história da moça que foi emparedada por seu terrível pai, escrita por um Recifense , em um jornal do início do século XX.

   Talvez a loucura dele viesse desta obra de ficção. Era uma primeira edição! Peguei e abri na primeira página, e havia uma dedicatória:

“Ao bom amigo Christiano, pelas histórias e carraspanas memoráveis, de vosso sincero admirador pela eternidade, Joaquim Maria C. Vilella”.

 Era do próprio autor! Mas como ...

Coloquei o livro de volta ao lugar. Ao lado dele, estava o que me pereceu alguns cadernos , mas de capa tão gasta que dava medo manusear. Era cerca de 20 cadernos, enfileirados, pelo que parecia, por ordem cronológica. Peguei o primeiro, cuidadosamente. Deus, era velho!

   Dentro, páginas amareladas e a inacréditável data: 1852. Sério, isso? A caligrafia era elaborada, e além da data, estava escrito na primeira folha: “Êste caderno pertence à Christiano Allemcar”. Uma rosa intrincada com espinhos e sangue (?) decorava a margem de baixo.

   Folheei cuidadosamente, era um caderno de poesias. Em algumas delas, a data e idade: 15 annos. O caderno de um garoto. Poesias românticas e um pouco bobinhas, mas muito bem escritas, impecáveis. Coloquei o caderno no lugar.

   O outro, era de 1853, e a idade , 16 annos. Se estivesse correto, o Garoto nascera em 1837. Mais poesias, uns rótulos de coisas que não sabia, alguns soltos na página. A ilustração de uma revista, de uma moça sem roupas. Ri um pouco. Garotos são sempre garotos. Mas um texto chamou minha atenção:

“ Desde criança me chamam de Jurupari. Pensava que era por minha tez pálida, que não amorena com o calor do sol. Por quê sou Jurupari, o legislador, o mal, o demônio? Porventura não sou bondoso, ou faço matinas, Laudes e vésperas como outros jovens ? Mais até que os outros, pois ainda ajudo Padre Eusébio nos afazeres da igreja? O que me define como demoníaco?”

Abaixo disto, um desenho feito com bico de pena , de um garoto cacheado e com chifres de demônio, depois riscado até quase rasgar a folha. Aquilo me perturbou um pouco. O texto raivoso, quase uma confissão, o desenho riscado,aquela palavra, “Jurupari”. A palavra com a qual eu acordara do sonho no dia anterior.

   Coloquei o caderno de volta na prateleira, e percebi que havia vários iguais, mais à frente. Peguei um: 1858. Não havia datas, mas pelos cálculos, ele teria uns... 21 anos? Parei em uma das poesias. A letra um pouco mais amadurecida, ainda floreada.

 

Quando já choramos todas as lágrimas

E o rosto secou no travesseiro amigo

Não atinamos a razão do castigo

Que faz o destino virar as páginas.

 

O espanto que se faz neste momento

É o mesmo que destrói a esperança

Que vicia o ar com a triste lembrança

E que retira todo o nosso sentimento.

 

Vingamos a dor com o segredo

Ele, o único confidente que esquece

Nossas preces, angústias, verdades.

 

Mas é ele, que degrada e enobrece

Toda a dor que transforma em saudade,

E o pranto que redime todo o medo.

 

   A poesia era muito deprimente. Mas, ao mesmo tempo, era uma espécie de depressão forjada, forçada. Logo depois, havia uma poesia alegre. Virei mais algumas páginas, absorta.Então, de repente,  me deparei com a poesia. A poesia de meu sonho.

    Fiquei paralisada, lendo a poesia que saíra de minhas mãos, transcrita ali. Em um caderno com mais de 160 anos.

... Noite morta, olhos tristes, vela apagada

O fim de tudo que resta ao ser humano

Me espera decidido, ao fim da estrada.

Estrada que se revela  amargo engano

Finda que não encontro em vida a amada,

Vida minha, da qual não fui soberano.”

   Eu falei os versos finais, ainda admirada de tudo. Com o caderno nas mãos, olhei para a caligrafia, e para aquelas notas de preço e listas de compras modernas. Como não percebera a semelhança? Era a mesma letra, os mesmos floreios, a mesma...

- Já cansou de mexer em minhas coisas?

  Dei um pulo, assustada. Lá estava ele na porta do quarto, me olhando, um pouco divertido, um pouco irritado. Usava uma camiseta verde e calças jeans, descalço. Parecia desarmado e não muito difícil de driblar. Lembrei do abridor de cartas. Ocultei por trás da camisa, disfarçadamente. Ele não percebeu, ou não demonstrou ter percebido.

- Eu... – coloquei o caderno sobre a escrivaninha.- Desculpe. Não sei o que dizer, eu... estava xeretando.

Ele cobriu a distância entre nós dois. – Sou bastante... sentimental com estes cadernos. Cuidado.

Enquanto ele se aproximava, avaliei a possibilidade de correr até a porta, ou mesmo feri-lo com o abridor de cartas.

  - Todas as coisas que estão neste quarto são preciosas para mim, de alguma forma. – Ele chegou mais perto. Me preparei para atacar.

   Mas ele como que previu minha intenção de esfaquear, e em uma velocidade surpreendente, interceptou o abridor de cartas, torcendo meu pulso de forma eficaz para que ele caísse ao chão.

- Inclusive este abridor de cartas. Foi de minha mãe.

Tentei me soltar, mas era impossível. Parecia feito de pedra, nem se mexia. Mas tentava me segurar com uma certa delicadeza para não me machucar. Claro que lutei como uma louca, e me machuquei, de tanto forçar a fuga. A porta estava ali, aberta, para mim. Dei um grito frustrado.

- Pare com isso, você vai se machucar mais ainda! – Ele sequer estava cansado, e eu arfava semimorta do esforço em me soltar.

- Por quê se importa? Vai me matar mesmo, não é?

Ele ficou surpreso. E, me pareceu, um pouco magoado. Mas foi só um segundo. A máscara de frieza se afivelou no rosto, novamente.

- SE eu quisesse matar você, pode acreditar... você já estaria morta. – E seus olhos não deixaram dúvidas de que falava a verdade.

Então, do nada, ele me soltou. Eu estava exausta da luta, ofegante, e sabia que nunca iria conseguir sair dali livre, ele não iria deixar. Apoiei as mãos doloridas nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

- Ok, ok, entendo. Você é muito forte.

- Amanhã seus pulsos e mãos estarão inchados. Deixe-me ver... – ele tentou me alcançar, mas eu recuei. Ele passou a mão nos cabelos. Muito irritado.

   Eu estava com a cabeça a mil. E, ao mesmo tempo, não conseguia pensar de forma coerente. Se ele tinha mais de 180 anos de vida...

-Você é um vampiro, não é? – a frase idiota saiu sem querer de minha boca, completando meu pensamento.

  Mas eu não esperava a reação dele. A cara surpresa que ele fez, depois a gargalhada que brotou, espontânea. Eu fiquei parada, me sentindo uma imbecil completa, enquanto lágrimas saíam dos olhos dele, de tanto rir. Tomou fôlego, respirou fundo , ainda com riso na voz:

- Essa foi boa. Confesso, não esperava – pôs a mão em meu ombro, conciliatório. Baixou completamente a guarda, e vislumbrei mais uma vez o que havia por baixo de sua fachada austera - Não, Lorena, eu não sou um vampiro. Isso não existe. Pelo menos,não como está nos livros , ou nestes bobos contos de fadas modernos.

- Mas... você falou que monstros existem, não é mesmo? E naquele armário - apontei, acusatória - ALI. Tem uma roupa cheia de sangue.

   O riso morreu nos lábios dele. Tirou a mão de meu ombro, e eu senti que a proximidade fora quebrada, Estranhamente, isso me deixou triste.

- Sim. – ele respondeu, e estava novamente cheio de cautela. A resposta concisa era para todas as minhas perguntas. – É sangue, meu troféu. O sangue da criatura mais vil deste mundo. E os monstros são muito piores que Quaisquer descrições  açucaradas de livros ou séries de tv.

   Ele se recompõe, mas um pouco menos ameaçador.

- Está chegando o tempo de termos uma conversa, mas não hoje. Você está cansada e abatida por todas as emoções. Acredito que com fome, também, não? Ouça, eu peço apenas que fique aqui, para que possa protegê-la. Não é a melhor das situações, eu sei, mas não será por muito tempo. Não podemos sair do apartamento, mas mandei vir algo para você comer.

   Ele parou de falar, e me olhou. Ficamos parados, avaliando um ao outro, frente a frente.  Ali, onde estava, usando apenas uma camiseta surrada e jeans, sem sapatos, ainda assim não parecia alguém igual aos outros. Ele claramente era diferente, como se pertencesse a uma outra classificação de ser humano, ou mesmo nem fosse.

   Havia esta aura ao redor dele, que eu não saberia explicar. Me toquei que estava usando só uma camiseta comprida e calcinha, fiquei envergonhada e baixei a cabeça, constrangida.

   A voz dele suavizou: - Mandei lavarem suas roupas, vou buscar para você. Peço desculpas. – Saiu, e deixou a porta aberta.

   Eu não tentei escapar de novo. Primeiro, porque não iria conseguir mesmo. Depois, eu percebi que algo mudara. Fiquei então ali, parada, apenas esperando.

   Ele havia percebido que eu desistira de tentar escapar. Parecia um pouco mais relaxado e aliviado. Voltou, trazendo minhas roupas, dobradas e dentro de um saco de 5aSec. Junto, estava uma sacola de papel, pequena, de loja, com etiqueta dourada.

- Aqui- Me entregou – Eu pensei que você gostaria de ter suas roupas de volta, mas resolvi lavá-las, para ficar mais confortável. Amanhã trarei roupas para você. – Ele me olhou, com uma certa reserva – Falei com sua mãe.

Eu fiquei meio sobressaltada: -Falou o que? Como ela está, está preocupada comigo?

  Ele me olhou: - Não vou enganar você, Lorena. Liguei para ela. Conversamos bastante, é uma senhora encantadora. Me apresentei como seu amigo da faculdade. Amanhã trarei algumas de suas roupas, vou pegar com ela.

- Mas...ela acreditou em você? Como?  –Eu estranhei a facilidade com que ele convencera minha mãe. Ela era uma das pessoas mais paranóicas com ladrão, sequestro e outras coisas desse tipo. Como ele conseguira isso? Esperei que ele falasse algo, mas um silêncio desconfortável surgiu,e  ele não disse mais nada a respeito. – Certo. Ela... está bem, não está?

- Sim, ela está bem, não acho que irão atrás dela. Querem você, e a mim. Ela estará segura, se você não estiver lá. – Ele fez menção de sair – Vou deixá-la à vontade, para tomar um banho, trocar de roupas, ok? Aguardo lá fora.

   Saiu e fechou suavemente a porta, desta vez. Abri o saco de lavanderia, estava tudo ali. Eu só queria um banho, colocar roupas limpas. Fiquei grata por essas pequenas coisas. Precisava ver algo positivo dentro de toda aquela loucura, ou iria perder a sanidade.

   O banheiro da suíte era lindo, igual ao quarto. A parede em granito irregular aparente, Limpo, bem iluminado e amplo. Tinha um box largo e  envidraçado, com chuveiro e uma espécie de banheira de hidromassagem ao lado. Pude ver que havia uma porta de vidro  interligando o box do chuveiro com o da banheira. O chão parecia mármore, mas eu não sou o suficiente sofisticada para afirmar isso. A pia era uma bancada também de granito rústico, com uma cuba e espelhos elaborados. Tudo era tão belo que fiquei um tempo, parada, admirando. Não era pelo fato de ser caro, mas sim o refinamento que cada peça evocava.

   Cristiano parecia ter 20, 22 anos. Aquele tipo de bom gosto me parecia algo desenvolvido ou com uma educação e bom nascimento, ou ao longo de anos de vida e experiência. Não podia ser forjado.

   Tirei a camisa, a calcinha e dobrei com cuidado sobre a bancada. Era a calcinha com a qual ele me levara para aquele apartamento. Acho que era a única peça de roupa que não fora lavada. Paciência, suspirei. Foi quando lembrei do saquinho de loja que viera junto.

   Era uma boutique, bem conhecida e cara de Boa Viagem. Eu já passara uma ou duas vezes pela frente das vitrines. Curiosa, descolei a etiqueta. Deus, ele pensava em tudo, não é mesmo? Fiquei vermelha de vergonha.

   Dentro estavam, embrulhados em papel fino, um conjunto de lingerie novo, soutien e calcinha. As duas peças combinando, em rendas e um tecido etéreo. A etiqueta interna dizia 100% seda. O preço estava rasgado fora. Morrendo de constrangimento, vi que eram EXATAMENTE do meu tamanho.

  Ele sabia que eu iria precisar daquilo, e comprara para mim. Fora educado e gentil o suficiente para não comprar novas roupas, pelo contrário, tentara me deixar à vontade, usando minhas próprias roupas. Quem era ele, na realidade!

   Fiquei mais uma vez envergonhada, imaginando ele escolhendo as peças na loja, avaliando o tamanho e... aaah, meu Deus, socorro. Ele mesmo havia tirado minhas roupas quando eu estava inconsciente, e me vestira com aquela camiseta, não foi? Que situação!

   Mas ele agiu como um cavalheiro. Não falou nada.

   Suspirei. Meu espírito prático voltou a funcionar. O que fora visto, não podia ser “desvisto” (ha ha ha. ENGRAÇADO, só que não). Entrei no box. Realmente precisava daquele banho.

   Me enxuguei com uma toalha branca que estava dobrada na bancada. Deixada para mim. Também havia uma escova de dentes ainda na embalagem, perto da pia.  Ele realmente era meticuloso nos detalhes.

   Vesti a calcinha e soutien, lindos. Ficaram sob medida, como eu suspeitava. Não ia pensar naquilo de novo! Na bancada havia desodorante e alguns bons perfumes masculinos. Coloquei o desodorante, mas não ousei usar nenhum dos perfumes dele.

   Minhas roupas estavam com um cheiro delicioso de limpas, e bem macias. Me senti muito bem, ao terminar de me vestir. A roupas, minhas, me davam a sensação de ter ainda o controle da situação, me tranquilizavam. A lingerie fora uma necessidade.

   Saí do banheiro, já vestida e penteada, e fui até a porta. Estava aberta.

   Ele estava de costas, na janela imensa da sala. Se virou, assim que a porta do quarto abriu, e veio na minha direção.

 - Se sente melhor, não?

 -Bem melhor- confessei- Obrigada.

Ele estendeu a mão para mim . Parecia encantador, mesmo naquela camiseta velha e verde.

 Da cor de seus olhos.

Ele se inclinou um pouco, os olhos dentro dos meus:

 - Me daria o prazer de sua companhia para jantar?

   Era absurdo, algo meio louco. Esse rapaz me sequestrara, trancara em um quarto, para me proteger de monstros que afirmava existirem, e aliás, jurava ter 180 anos de idade.

   Qualquer um me diria: esse cara é doido varrido, chuta ele bem no... e sai correndo, melhor morrer fugindo, que sendo estuprada passivamente. Mas eu, no fundo, acreditava nele. Havia uma verdade absoluta e desconhecida, que me fazia ficar.

 -Venha comigo. Falaremos um pouco de algumas coisas durante o jantar.

  Sem opções, eu o segui.

 

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Cristiano

   Então as coisas evoluíram para um jantar.  Confesso que fiquei um pouco nervoso.

   Obviamente, encomendei alguma comida pronta,  pois não tenho quase nada em casa, exceto café e vinho. Acho engraçado o fato de precisar  talvez fazer compras para alimentar minha hóspede.

   Levei Lorena até a mesa elegante na sala. Excetuando meu advogado  e o  contador, em escassas vezes,  nunca ninguém veio aqui neste apartamento, meu refúgio e santuário. Talvez por isso eu não tenha tirado minhas coisas do quarto. Ou foi um ato falho, onde eu queria que ela olhasse, e descobrisse a verdade sobre mim. Ela fez o que eu não esperava, ou esperava.

   Aproveitei enquanto andávamos, lado a lado, para observá-la. Estava abatida e assustada. Apurando discretamente meu poder, eu sentia seu corpo irradiando uma energia fraca, que aliado ao medo a fazia parecer muito frágil. percebi um pouco de estresse, também.

    Claro que sim, estava ali à minha mercê. Para ela, eu até poderia se ameaçador, e seu instinto estava de certo modo correto. De qualquer forma, isso não era um jantar romântico ou de amigos, era algo forçado por mim, e eu a sequestrara, na melhor das hipóteses.

   Lorena não sabe do poder que possui dentro de si.

- Sente-se aqui, se desejar.- Puxo a cadeira para ela. Ela aquiesce.

 Eu arrumei a mesa, da forma mais simples para não confundi-la. Ao longo da vida e das décadas, eu me tornei extremamente sofisticado, mas ainda consigo lembrar quando era mais modesto, e ainda não havia sido tocado pelo mal. Prato, copo,taça, um par de talheres. Ele me olha:

-Você... não vai comer nada? – Pergunta. Só há um conjunto de utensílios. Vou à cozinha e pego uma taça para mim, abro um vinho tinto. Châteauneuf du Pape 2001. Sempre gostei desse.

-Eu não preciso comer agora, Lorena. Mas fique à vontade. Pode se servir, ou prefere que eu a sirva?

- Disse que iria me responder algumas perguntas. – Ela me olha nos olhos.- irá fazer isso mesmo?

-Sim. - Eu sento.- Mas coma um pouco, por favor.

Ela serviu-se de um pouco de comida. Estava faminta. Eu conseguia sentir a energia dela, voltando a ficar mais forte, menos apática. Para mim, agora, ela exalava um cheiro de saúde e vida, mas não deveria assustá-la falando disso. Aos poucos, pareceu ficar menos tensa, mais relaxada. Eu nos servi a ambos uma taça do vinho tinto.

   Enchi nossas taças.Ela parecia extremamente jovem e inocente, um tanto quanto não acostumada a receber atenção de um homem. Estava um pouco embaraçada.

- Obrigada por mandar lavar minhas roupas e... pelo presente. Foi muito útil.

Sorrio para ela: - De nada. Acredito que acertei o tamanho?

Ela ficou totalmente vermelha. – Sim. Mas como...?

Eu me recostei na cadeira: - Já fui caixei... vendedor de loja de tecidos e outras coisas para senhoras. Ainda lembro de como escolher tamanhos.

   Ela meio que hesitou,mas baixou um pouco a cabeça, dando um gole no vinho. Parecia estar se preparando. Agora vinha a parte difícil da coisa.

- Então... mudando de assunto, há tantas coisas que eu gostaria de saber. Como tudo isso foi acontecer? Quem é você, na realidade?

- Quem é VOCÊ, na realidade, Lorena? – Apoiei o queixo nas mãos cerradas, olhando diretamente para o rosto dela.

-Eu? - Ela sorriu, timidamente , pegando um cacho de cabelo entre os dedos e enrolando, para distrair o constrangimento – Eu não sou ninguém, acho, só uma garota normal, com uma vida normal...

Garotas normais não convivem com assombrações, pensei.

- E sempre teve problemas respiratórios, correto?- Pergunto.

Ela me olhou desconfiada:

- Sim. Desde pequena, duas coisas me acompanham. A asma e...- Parou de repente, como se não ousasse falar mais.

Difícil de extrair algo dela, de forma espontânea.

- Os sonhos. – Falo, com simplicidade. Deve ter sido terrível crescer sonhando vezes sem conta com a própria morte.

Ela toma um gole do vinho e tenta adquirir coragem: - Eu sonho com isso desde que consigo me lembrar. No começo, achava que parecia um filme, com mocinha, mocinho e bandido. Ou uma princesa e príncipe. Depois, fui mais ou menos entendendo que era...um assassinato. - Ela parecia angustiada.- E você... era você, não era?  O rapaz de meu sonho? Você morreu... Ou deveria estar morto,  pelo menos.

- Sou sim. Mas não estou morto.- Respondi, seco, dando um gole generoso no vinho.

  De certa forma, aquele Cristiano estava morto, sim. No lugar dele, habitava seu corpo um assassino frio, que perdeu todo e qualquer contato com a humanidade. Estava fazendo um esforço para conversar com Lorena, parecer alguém normal, ainda com

.  A  única coisa viva que me importava estava ali, bem na minha frente. Permanecia intocada pelo tempo e pela dor, adormecida naquela moça ainda criança. Como começar aquela história macabra, e não magoá-la?

   Impossivel, respondi a mim mesmo. Ela precisa ser magoada, destruída e ressurgir das cinzas. Precisa enfrentar tudo o que vai vir de agora pela frente. Este jantar é o último porto seguro de nossas vidas. Esvazio a taça.

- Lorena, sei que tem perguntas, terei prazer em responder. Mas antes, preciso saber o que pensa, o que acredita, ser aquilo que chamam de... uma assombração. Me diga.- levanto a taça vazia para ela, incentivando .

   Ela molha os lábios, pensando.

- Não sei, um... fantasma? Geralmente, assombrações são isso, não?

Encho novamente minha taça. Não fico bêbado, pois não tenho o mesmo metabolismo humano, mas gosto da sensação do álcool. Coloco mais vinho na taça dela.

- Não é exatamente isso. Um fantasma pode ser uma assombração, mas nem toda assombração é um fantasma . Existem assombrações de carne e osso.

“Eu, por exemplo, sou uma assombração.” quis dizer, mas me contive. Tentei ir com calma, para começar.

   Ela parecia interessada no assunto, pois se inclinou na minha direção. Ok. Mais um gole. Observo que ela bebe, automaticamente, quando levo minha taça aos lábios. Talvez fique mais fácil falar se ela estiver um pouco embriagada.

- Então, as assombrações são de diversos tipos. Encarnadas, mortas, vítimas de maldição ou mesmo doença. Uma pessoa normal geralmente nasce, vive e morre sem necessariamente se tornar uma assombração, um fantasma que tenha poderes de interferir no mundo. Mas algumas pessoas, algumas – eu a olho, sério.- podem vir a se transformarem em assombrações. E aí, existe um lugar onde ficam.

- Um lugar... neste mundo nosso?

- Não. Geralmente, não. Aqui em Recife, por exemplo, elas estão bem limitadas, espacialmente falando.

- Mas, mas... isto tem a ver com as moças mortas no sono, não tem? Aquelas que morreram sufocadas, e que não eram asmáticas, ou cardíacas... Meu Deus. – Lorena empalidece.- Foi... uma assombração que as matou, é isso?

- Sim Lorena. Foi uma assombração, que recebeu alguns privilégios. De uma espécie de... Rei. Vou explicar.

   Ela parecia devastada. Mas não senti culpa de estar destruindo um pouco de suas crenças na realidade. Aliás, não sinto mais quase nada, por ninguém. A culpa iria atrapalhar a urgência da mensagem. Então continuo, narrando igual um professor ao pupilo, como se nada tivesse acontecido.

 - Uma assombração, no entanto,  possui limites. Pelo menos a maioria delas. Se for algo já morto, precisa de um corpo físico, ou então pode ser uma manifestação um pouco mais sólida, por exemplo, algo que consegue tocar ou deslocar objetos, mas não pode ser tocado, nem machucado. Com um corpo físico, a assombração pode ser machucada, mas não destruída.

Dou uma pausa. Ela parece que vai aguentar essa conversa, pelo menos, antes de desmaiar, ébria de vinho.” Que beba”, penso, maldoso. Pelo menos torna meu monólogo mais fácil.

 - O homem no seu sonho, o “Homem Terrível”, como o chama, é uma assombração. O Visconde de S***. Uma das bem desprezíveis, devo ressaltar. Era em vida um tirano, sentia prazer em castigar os escravos até a morte, para depois os enterrar e usar de adubo para suas roseiras.

 Um resumo que mal arranhava a superfície da verdade. E era um monólogo bem amargo de digerir,mesmo com vinho.

 -  Assombrações seguem a morte de forma natural a todos os humanos. Ficam um tempo como meros fantasmas, assombrando alguns viventes mais sensíveis.  Quando o Visconde...teve a decência de morrer, ficou mais louco ainda que era em vida. Pedia, neste tempo,  pelos corredores da casa, missas por sua alma, como se o que ele tivesse feito pudesse ser redimido com as palavras de um Padre na igreja.Como disse, desprezível. Algum tempo depois, ele foi alçado à categoria de assombração.

   Encosto na cadeira. Estou levemente eufórico pelo vinho, bebemos a garrafa inteira. Lorena oscila, como se estivesse colapsando. Quase esqueci de sua fragilidade humana. Devo deixá-la descansar, mas antes, preciso protegê-la de algum ataque psíquico, ou por alguma forma que Cabeleira encontre. Ele é capaz de fazer qualquer coisa para ter os portais de Evoé abertos novamente.

    Matar aquele estúpido Visconde de S*** não foi o suficiente. Eu não o sabia , na época, de tudo o que falei para Lorena. Era ainda muito impulsivo.

 De repente, ela põe uma das mãos na mesa, segurando nas bordas. A outra, está com a taça vazia.

- Yurupari.

 Se algo ainda poderia me surpreender, era isto.

- Como? Lorena? O que disse?

- Não tive a resposta para nenhuma das perguntas que eu queria fazer.- Ela estava definitivamente embriagada. – Mas esta você vai responder, vai sim.

- Pode falar. - Recuperei meu bom senso

- O que é Yurupari, Jurupari, ou o que seja .- Ela tentou colocar a taça de volta à mesa, mas quase falhou nisso. - E por que você era chamado assim? Você era chamado assim, não era? Quando tinha... dezesseis anos, por aí, sei lá. – Recostou na cadeira, os olhos meio turvos.

- Você leu no meu caderno, isso. Eu era um garoto, ainda.- Tentei ganhar tempo.

- seu caderno de... 164 anos atrás – Ela riu, deu um soluço.- não é mesmo?

- Esta história precisa ser contada para você com calma . Vou contar tudo que precisa saber. Mas hoje você... provou um pouco demais do vinho, não foi?

- Ei, Não me trate como uma retardada, eu não sou isso!

 Ela se aproxima de mim, o vinho dando-lhe coragem. Pôs a ponta do dedo no meu peito, cutucando.

- Eu sonhei com você, um outro sonho além daquele, meu caro. Vi você, pequeno,correndo em uma vila de interior com umas crianças indígenas, e depois... eu era você. Aqui em Recife, sim,  mas era um Recife diferente, eu estava feliz e queria escrever uma poesia, queria morrer de amor, queria...tantas coisas.

A voz desceu, em um murmúrio, quase. Ela baixou a cabeça. Oscilava um pouquinho:

- Eu acordei deste sonho, e escrevi uma poesia linda, mas eu nunca fiz poesias. -- Riu, como se falasse consigo mesma. – E não era minha, mesmo, era sua. Eu li no seu caderno, a poesia... a mesma que eu escrevi...

 Lorena voltou os olhos torturados para mim. Eu devia estar encarando ela a algum tempo, paralisado. Amanhã falaríamos melhor sobre este assunto, mas não agora, com ela tão fragilizada e cansada. Respirei fundo:

- Calma. Vamos devagar, eu não acho você burra, retardada, ou a estou subestimando. Amanhã eu prometo que falaremos sobre Yurupari. E outras coisas sobre o passado que você precisa saber. Não temos muito tempo, nem mesmo hoje, nem mesmo agora, para explicar melhor.

   Tiro meu crucifixo e anel do pescoço, e o coloco no pescoço dela. Ela se acalma, põe a mão sobre a cruz de ouro. Diz, num suspiro: - Proteção.

  Não é uma pergunta, e sim afirmação.

- É a proteção contra o “Homem Terrível”- Falei, com cuidado. Ele não conseguirá matá-la, como fez às outras garotas.

- Foi ele – Os olhos dela, grandes como pires.- Ele estava me procurando, eu sabia!

- Estava.- Afirmo – e pode vir a qualquer momento, tentar levá-la com ele.

Seguro-a pelos ombros :- Não necessáriamente VIVA. Porque ele não precisa deste corpo seu, entende, Lorena? Ele quer a sua alma.

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Evoé

    O mausoléu-castelo de Cabeleira era gigantesco. Tanto em altura quanto em extensão, possuía 3 andares de aposentos intrincados e inúmeras salas e ante-salas.. Tortuoso, barroco, complexo e único, igual à mente do Rei.

   Ali as assombrações mais nobres circulavam; a guarda pessoal e o grupo de confiança de Cabeleira, entre os quais poderiam ser encontrados Branca Dias, a nobre Viúva judia que amaldiçoara o Riacho da Prata de Camaragibe, O temível doutor de Apipucos que se transformava em um feroz  lobo assassino, nas noites de sexta-feira, a sedutora e loura Alamoa, que atraía para a morte nas águas de Recife e de Olinda os que dela se enamorassem.

   No círculo interno palaciano também estavam o Visconde de S***, o velho escravo pessoal de Hefesto, que roubava as crianças e as colocava no saco que levava nas costas, e o próprio Boca de Ouro.

   Todas estas assombrações eram como que reclusas àquele universo, sem poder transitar livremente entre mundos. Aguardavam ansiosas, o dia em que  Cabeleira conseguisse arregimentar um Liminar, um abridor de portais entre dimensões, para que novamente usufruíssem do plano físico..

   Logo após sua nefasta vingança, Valdemar atigiu o patamar de malassombro. Lembrava de, quando tudo acabou, ter sido como que tragado à Evoé, direto para a presença de Cabeleira. Foi com espanto que descobriu o quanto sua história impactara Recife e como, através disso, se tornara para sempre uma assombração. Mesmo que tivesse, desde o início, de usar o corpo emprestado dos cadáveres de Alberto para realizar suas andanças pela cidade de baixo, Boca de Ouro adorava o fato de poder viver para sempre. Bem , quase para sempre.

   Ele caminhou pelo corredor do imenso mausoléu. Ia na direção do salão principal, onde estava o  Rei.  Gostava de contemplar as ante salas com quadros de temas sombrios, os tons de meia noite das paredes. Noite sem estrelas, corredores que levavam para uma sala de trono opulenta e infernal.

    A primeira vez que vislumbrou  Cabeleira, achou-o imponente. E era. Não sabia se a imponência vinha do homem, ou do trono formidável que ele ocupava. De fato, o trono era feito de crânios, colunas vertebrais e fêmures humanos. Tantos ossos, tantos crânios, todos de homens  que ele matara em vida. Era um trono detalhado, como tudo no Mausoléu, ao mesmo tempo belo e assustador.

O homem que o ocupava não era menos : atraente, com longos cabelos negros. A sua tez morena e nordestina. Apesar de forte e alto, tinha o rosto surpreendentemente seráfico. Olhos belos, nariz afilado, lábios quase inocentes. Era um rosto capaz de virar a cabeça de uma mulher. Trajava roupas de couro do século XVIII, um colete de recortes de vaqueta, camisa de linho muito branca e calças rústicas de um couro mais escuro. Sempre tinha perto de si uma pequena cabaça com aguardente, que apreciava muito. Em vida, fora o flagelo do sertão, quando sequer o termo cangaceiro ainda existia.

   Recebeu na pia batismal o nome de José Gomes,mas ficaria conhecido em toda a mata de Pernambuco como Cabeleira, o terrível assassino e estuprador. Mas nem todas as mulheres ele seviciava. Quando queria, podia seduzir a mais santa beata, e convencê-la a se tornar uma prostituta, de livre e espontânea vontade. As mulheres, mesmo as que eram violentadas, o seguiam, cegas de amor. Os homens o respeitavam, pela sua força bruta e astúcia.

   Foi, um dia, apreendido e sentenciado à morte em Recife. Levava para a morte, no rosto, o mesmo sorriso que endereçava à uma mulher subjugada ou inimigo que matara. Não temia o outro lado, pois sabia que, houvesse o que houvesse no além, ele, o Cabeleira, o conquistaria. E dito e feito, nem mesmo a morte derrotou àquele que já era o rei do horror em vida.

  Um  século ainda se passaria antes de Cabeleira assumir o trono de Evoé, e criar o séquito de suas monstruosidades. Era o mais forte, o mais inteligente, o mais esperto e cruel das assombrações de Evoé. Aquele mundo de trevas estava bem servido de Rei.

   Boca de Ouro adentrou a sala do trono. O piso, de mármore negro e brilhante, parecia um céu tempestuoso. As pinturas eram todas sobre condenações infernais, onde os seres se afligiam em uma série de torturas e dores. Estas imagens se multiplicavam em todas as paredes e teto, como se fosse uma Capela Sistina às avessas.

   O trono fantástico estava sob um dossel escuro de seda. Os crânios se esparramavam  e amontoavam , subindo nas estruturas montadas de fêmures. O encosto era feito das colunas vertebrais , e sobre ele o sorridente Rei de Evoé o esperava.

- Saudações, meu caro Boca de Ouro! - Cabereira lhe endereçou o mais brilhante sorriso. – Que novidades me trazes hoje? Encontrou o que pedi?

 Boca de Ouro fez uma mesura ao rei. Ele era impressionante, mesmo depois de todo esse tempo.

 - Senhor, encontrei a ambos. O Papa-Figo e a jovem.

   Cabeleira parecia renovado:

- Esplêndido !! – Chamou um guarda – Traga-me o Visconde S***. Preciso dele. Agora!

   Voltou-se para Boca de Ouro : - Estão juntos, não é mesmo? Aquele idiota realmente acredita que conseguirá escapar de mim?Foi um século de espera, mas valeu a pena. Em breve, seremos livres, meu caro Valdemar!

- Boca de Ouro, senhor. Não sou Valdemar a muito e muito tempo.- Boca de Ouro replicou. – Estão juntos no apartamento dele. Tenho o endereço, fica em Boa Viagem, próximo à praia.

- Ótimo – Cabeleira serviu-se de uma dose de aguardente. Algo do que nunca se privava, desde vivo- Quer um pouco?

- Não, meu senhor . não me dou bem com  álcool. Em vida, sempre preferi uma boa gasosa.... refrigerante, como chamam nos dias de hoje.

   Cabeleira virou o copo em um só trago:

- Bem, quando eu  era vivo sempre apreciei a cachaça, meu caro. Bebida de macho!- Olhou por sobre os ombros de Boca de ouro- Eis que chega nosso nobre Visconde. Boas novas, Caro Francisco !

   Boca de Ouro se virou, e viu o Visconde de S***. Usava suas roupas de nobre do século XVIX , sobrecasaca de veludo e polainas.

   O Visconde escolhia aparecer como um homem adulto, no auge de sua forma,  mas Boca sabia que ele morrera bem velho. Era o momento que esperava, desde que desencarnara.

- Meu Rei- O Visconde fez uma mesura – Precisa de meus serviços?

- Sim meu caro Francisco de Paula. Alvíssaras!  Encontramos a garota que traz o espírito de tua filha!

 A assombração ficou visivelmente nervosa. Era quase...humano. Alternava expressões no rosto, às vezes parecendo um tanto patético, às vezes, perigoso. Boca de Ouro o detestava. Era extremamente instável, e provavelmente morrera insano, para ser tão perturbado.  Mas tinham de suportar sua presença, pois ele era parte do plano. Parte importante.

   O Visconde torcia e retorcia as mãos:

- Enfim, posso destruí-la... não, não é certo, pois sim? Preciso de mais missas por minha alma, preciso... Mas quero matá-la com minhas mãos, mesmo que não possa  tocar de fato nela, mesmo que... Deus! Como eu anseio para sufocá-la, misericórdia, Senhor!

   Cabeleira observava, sorrindo.

- Sim, sim, caro Francisco. Você poderá sufocá-la no sonho, hoje ainda! Não seria formidável? Trazer o espírito dela para cá, aprisioná-la em Evoé ?- Inclinou-se para frente, quase sussurrando, seduzindo, convencendo. – Poder torturá-la pela eternidade?

Francisco de Paula, de repente parecia oscilar entre a felicidade e a dúvida. Como se ainda fosse humano, baixou a cabeça por alguns momentos, e respirou fundo. De súbito, uma aura de malignidade o cercou, quase palpável.

- Onde ela está? Onde está Beatriz? – Levantou a cabeça e um ar demoníaco tomara suas feições – Onde está aquela mundana ?

- Ótimo ! - Cabeleira parecia deliciado. – Sabe onde ela está? Sabe com QUEM ela está?

-Não! – O grito do Visconde foi como um rugido de ódio.- Não com ele, não com aquele verme, aquele...

- Ele foi atrás dela, Francisco .-  Cabeleira fingia um desinteresse no caso, servindo-se de mais uma dose de aguardente. Porém observava discretamente as reações do Visconde. – Para protegê-la de você. Mais uma vez, ele a tira de suas mãos bem debaixo de suas barbas.

   Boca de ouro deu uma risada discreta. O Visconde o  olhou por sobre o ombro. A tremedeira e expressão arrependida desaparecera do seu rosto, e ali estava um homem realmente perigoso e assassino. Boca pensou consigo mesmo que Cabeleira sempre conseguia extrair o pior de todos em Evoé.

Cabeleira tomou a dose de um só trago:

-  Francisco, você sabe o quanto eu quero ver as coisas voltando a ser como eram. Você, Boca de Ouro também, nunca tiveram a oportunidade de ver Recife em toda a sua glória, quando as assombrações andavam à solta. Os portais estavam abertos, e era muito mais fácil. Quando Hefesto se foi, perdemos nosso Liminar, e o sangue precioso que abria o Umbral.- Cabeleira se recostou no trono, juntando as mãos, pensativo.- Que vingança melhor você poderia ter que, seu inimigo escravizado à mim, enquanto vislumbra as torturas que poderá fazer ao espírito de sua filha?

   O Visconde parecia um louco: - Onde diabos eu a encontro? A sufocarei no sonho hoje mesmo. E trarei sua alma comigo. Quanto àquele maldito,- Falou, entredentes – não garanto que não o reduzirei a pó, se puder fazê-lo.

 Cabeleira bateu com o punho no braço do trono : - NÃO! – Gritou, furioso.- Cristiano pertence à mim, você não o matará, Francisco.Ele é um Liminar, igual o pai dele. Seu sangue é poderoso, e precisamos de um Papa-Figo aqui em Evoé. Você o trará até mim. – O rosto de Cabeleira abriu um sorriso demoníaco. - Vamos amarrá-lo aqui e sangrá-lo como a um porco, encher frascos e mais frascos de sangue... todos os dias, até o fim dos tempos. E então, toda a cidade do Recife estará de novo à mercê do medo e das assombrações. Fale para ele, Boca, onde está a jovem.- Deu uma piscadela marota para Boca de ouro.

   Como que assumindo um papel na peça de teatro, Boca de Ouro virou-se solícito para o Visconde, tomando a sua mão:

- Ah, sim ! Ela está em Boa Viagem, a praia, senhor Visconde de S***. Vou mostrar onde é. E aí, poderá usar o seu poder especial sobre ela, no sono,  e tê-la , a sua filha, toda para si.

- Eu a terei. – Francisco de Paula murmurou, soturno.

- Sim, e será hoje, sem falta.- Boca de Ouro olhou por sobre os ombros para Cabeleira . O Rei lhe fez um gesto de “vá, vá com ele”. - Venha comigo, senhor Visconde.

   Saíram os dois, da sala do trono.

   Cabeleira estava exultante. Estava tudo dando certo, de acordo com os planos. O Visconde de S***  era apenas um peão no seu jogo, que ele sacrificaria de bom grado para chegar à vitória.

 Em breve, teria em suas mãos o Liminar, e o seu sangue abrirá as portas de Evoé novamente para o mundo real. Os monstros poderão enfim entrar nas casas e nas vidas de todos, mais uma vez. Um sorriso mau escapou dos lábios do Rei.

   Não serão mais lendas sussurradas de mães para filhas, de avós para netos, sobre as assombrações de um Recife velho, caduco e esquecido, enterrado em um passado distante. Não mesmo.

 Pois neste dia, no dia em que o sangue do novo liminar  puder banhar os umbrais, Evoé finalmente irá recuperar sua glória perdida, e haverá uma onda de terror, trevas e morte nunca antes vista,  trazida pelas assombrações de um Recife novo, noturno e infernal.

 

Lorena

    Eu estava em uma nuvem de irrealidade. Tudo o que me fora dito era ainda muito novo, e mais por vir. Dei uma risadinha bêbada, imaginando que havia mais, e que era bem pior.

   Eu não era acostumada a beber, e sabia que bebera muito mesmo, naquela noite. Me encostei na cadeira, e então percebi, ou lembrei que ele estava bem atrás de mim. Sim, ele colocou o colar no meu pescoço, não foi? Tentei me levantar de novo, mas não consegui. Eita!

- Venha, vou ajudá-la a ir para a cama. - A voz dele estava controlada e educada. Segurei a mão que me era estendida, me levantei. Estava quase colada nele, e senti um braço ao redor de minha cintura.

- E você?  - Olhei dentro dos olhos dele, aqueles olhos verdes e lindos, tão próximos de mim. - Onde vai dormir?

- Eu me viro.- Ele sorriu, baixou os olhos, e  parecia divertido comigo. De repente fiquei um pouco envergonhada, parecia que eu estava convidando ele para ficar comigo no quarto.

Tentei me equilibrar só, mas minhas pernas não obedeciam. Droga, eu nunca bebera tanto, parecia uma idiota. Por que fizera essa estupidez? Não era capaz de enfrentar aquela situação sem procurar uma fuga qualquer?

    Ele, por sua vez,  parecia ótimo, e bebera bem mais que eu. Claro, pensei, alguém sobrenatural, com 180 anos devia ser mais resistente ao álcool. Isso parecia tão fantástico e tão possível, agora.

  Mas quando ele me deu o crucifixo, me senti repentinamente calma. O ouro queimava de encontro à minha pele, e ao mesmo tempo, dava a sensação de proteção. Aquilo, pelo menos, era real. Eu acreditava que aquele crucifixo e anel de noivado poderiam verdadeiramente me proteger.

   Caminhei, meio amparada, meio recostada no braço que que me sustinha pela cintura. Cristiano me guiou delicadamente ao quarto, e à cama. Ele me ajudou a sentar na cama, tirou meus sapatos, como se eu fosse uma criança, me deitou e me cobriu com um cobertor leve. Eu já dormia quando encostei no travesseiro. Estava mergulhando fundo no sono.

   Então, o meu velho pesadelo começou. Mas algo estava errado, nesta vez. Muito errado mesmo.

   Eu não conseguia respirar, sufocava, o ar pesava ao meu redor. Estava no quarto pequenino de sempre, o conjugado de todos os pesadelos, mas havia uma diferença: Cristiano não estava lá. Nem os escravos que o aprisionavam, nem aqueles que trabalhavam na parede. O quarto estava completamente escuro, frio e eu estava só.

  Sentada no chão, eu vestia aquela camisola antiga, de seda e renda, e minhas mãos estavam amarradas pelo chicote do Homem Terrível. Mas, onde estava ele?

Tinha algo a mais: um forte perfume de rosas no ar. Como se eu estivesse cercada de buquês, ou roseiras em um jardim, mas o quarto estava vazio.

   Fiquei tensa e nervosa. Não era o sonho de sempre.

   - Sua vagabunda.

   Tive um sobressalto. A voz,como um rugido baixo, profunda e maligna, vinha do canto mais escuro e frio do quarto. O ar ficou mais denso ainda, e o perfume mais forte,  a partir daquele canto. Tentei ver o que se escondia nas sombras, e pouco a pouco, o horror se revelou a mim.

   Era ele, o meu pai. O pai da moça emparedada vezes sem conta em meus pesadelos.Mas estava diferente, também.

   Vinha do escuro, como um monstro de conto de fadas... Meio curvado, arrastando os pés, e usava roupas de nobre; porém estas roupas estavam sujas e esfarrapadas. Nos outros sonhos, ele sempre estava elegante e bem vestido, como que saído de uma festa, mas neste sonho, se apresentava sujo, com os cabelos em desalinho, e o rosto dava a impressão de derreter por sobre os ossos. Tentei recuar, levantei mas não consegui me afastar de onde estava, nem me soltar. Estava aprisionada naquele laço de chicote, e meus pés pesavam,  colados no lugar.

   Então a coisa que tinha sido o pai se aproximou de mim. De forma sutil o cheiro de rosas foi ficando mais e mais doce, até se tornou algo ruim. Como se todas as rosas do mundo apodrecessem, em todo o lugar. O quarto ficava mais e mais gelado, a cada passo que ele dava em minha direção.

   - Meretriz.- Ele me olhava dentro dos olhos, e eu não podia escapar do horror que rastejava na minha frente. –Sua Vagabunda! – Gritou, descontrolado, e me assustei com a intensidade de sua raiva.- Achou que iria conseguir fugir de mim para sempre? Eu a encontrei, Beatriz.

  - Não sou Bea...

  - Cale-se! – Ele deu mais um passo, mais alguns e me alcançaria. Tentei em vão me soltar do chão. O pesadelo estava saindo totalmente de meu controle. - És Beatriz, sim, a filha que sujou meu nome, desonrou minha família. Está diferente, mas reconheço você, por baixo deste rosto... e hoje, eu consumarei minha vingança. Levarei sua alma imunda para Evoé comigo, e nunca mais conseguirá fugir de mim de novo!

   O monstro foi se aproximando mais e mais. O odor do quarto era insuportável e gélido, como uma cova recém-aberta. Quando ele pôs a mão pegajosa em meu colo, eu gritei.  Mas parecia que eu estava sob a água. Meu grito sufocou na garganta, não saiu alto como eu esperava.

  A coisa gorgolejou um riso maldoso:

- Difícil respirar, não é? Foi assim que levei a todas as outras, mas elas não me interessavam. Eu... as joguei no ESQUECIMENTO ! - Gritou -  Não eram você.- A mão dele resvalou mais ainda no meu pescoço. Agora eu sufocava desesperadamente, empurrava a criatura, mas ele era feito de frio e escuridão, e minhas mãos escorregavam naquilo que deveria ser um braço, uma camisa.

   Ele exultava. Eu consegui entender exatamente como as outras moças haviam morrido, desamparadas e desarmadas em seus sonhos, cercadas daquela escuridão e ar viciado. O medo intenso que as acometera e vitimara.  Aquela visão do inferno fora a última de suas vidas, o hálito gelado de rosas mortas soprando em seus rostos. O ar faltando, se transformando em um rugido de tempestade fria. Era ensurdecedor. Me encolhi, apavorada.

   De repente, a porta do quarto pequeno e escuro abriu. Uma réstia de luz entrou.

   - LORENA!!! – Ouvi uma voz me chamando, longe. E era ele. Livre, sem amarras ou escravos o segurando, Cristiano. Estava na porta. Usava as roupas modernas, camiseta verde e jeans velhos, estava descalço, mas não conseguia entrar. Ele segurou nas madeiras da porta, e impulsionou o corpo para dentro, para frente. O que quer que houvesse no quarto, não o deixava entrar, e o empurrava de volta.

   O Homem Terrível o olhou, e um rosnado saiu de sua boca. Suas garras entraram na minha pele, e pude ver sangue brotando na pele, como flores vermelhas. Tentei dar um grito, mas nada saiu.

- Maldito, Liminar do INFERNO ! – Ele gritou, para Cristiano – Chegou tarde, desgraçado, vou levá-la comigo hoje, não pode impedir.

   Cristiano se agarrava no pórtico, uma mão de cada lado, e o vento o empurrava de volta para a luz. Ele me gritou algo, que não consegui ouvir. O frio da criatura rugia ao meu redor, e nada conseguia me fazer conseguir libertar das garras que entravam por minha pele. Meu sangue pingava no chão.

   De repente, vi a outra mão da coisa se encaminhar para meus seios. Ele me tocou, e senti uma enorme dor , ao mesmo tempo que sufocava: O que fora meu pai em uma outra existência, tentava enfiar os dedos dentro de meu peito. Eu sabia, sabia que ele queria alcançar meu coração, para fazê-lo parar.

   Tentei proteger meu peito com os braços amarrados, mas como estava, pouco podia fazer. Olhei para Cristiano, em desespero. Finalmente, escutei ele gritar, no meio da tempestade gélida que me cercava:

   - O... lar... o ...Co... use... o  crucifixo!

Então entendi. Subi os braços penosamente, expondo ainda mais meu tórax. O Homem terrível riu e cravou as garras em meu peito com mais intensidade. Gritei sem voz em agonia, mas consegui alcançar o colar com o crucifixo de ouro e anel de noivado, postos em meu pescoço.

   Com as pontas dos dedos, puxei a pesada corrente de dentro da gola da camisola, que ele abrira para ter acesso ao meu coração. Cada movimento doía, mas consegui enfim.

   Um brilho vinha da corrente e crucifixo, a princípio suave, mas pouco a pouco, ficando mais e mais forte até se tornar como um sol.

   A coisa recuou, tirando as garras de mim. De repente, o ar se tornou respirável. Um pulsar de luz se formou ao meu redor, e o monstro foi recuando para a parede do quarto, cheio de ódio:

- Acha que conseguiu me afastar? Voltarei, e você irá comigo. Em breve, vou colocá-la dentro de uma parede, e você ficará lá por todo o sempre, e vou matar este maldito Liminar, também.

   A voz dele ficava menor e menor, assim como sua presença. Ia aos poucos se reduzindo a um homem comum, uma sombra, e por fim, nada. O quarto estava vazio, mas claro. Não demorei pensando, no entanto: corri para a porta, e me lancei nos braços de Cristiano. Então, acordei.

   Abrir os olhos nesta realidade me deixou momentaneamente confusa, sem conseguir respirar. Então, percebi que estava sentada na cama, enlaçada a um Cristiano preocupado e apreensivo. Eu sufocava, no meio de um ataque de asma avassalador.

   Ele, rapidamente, me soltou, abriu minha bolsa e de lá tirou minha bombinha com aerolin. Pegou minha cabeça, e colocou o bocal nos meus lábios, apertando. Levei o tempo necessário para me recuperar, enquando ele me sustentava, paciente. Quando levantei a cabeça, me deparei com os seus olhos fixos em mim. Estávamos sentados na cama , um ao lado do outro.

   Eu nunca estivera em uma situação parecida, e ao mesmo tempo que me restabelecia daquele sonho e ataque respiratório, tomei consciência do homem ao meu lado, de seus braços, seu corpo, do belo rosto estranhamente cansado demais.

   Ficamos um momento assim, nos olhando com olhos arregalados de espanto, e então eu recuei.  Senti uma dor intensa, no ombro e no peito, e me encolhi. Eu tremia, não sabia se do sonho ou efeito do remédio.

- Você está ferida.- Ele falou, calmamente. Sempre contido, percebi. Como se nada o tirasse do eixo.- Mas não se preocupe, amanhã, não haverá nenhuma marca destas em sua pele, asseguro.

 Olhei por sobre meu ombro e vi o ferimento. Onde as garras do Homem Terrível se cravaram, para me manter parada. Automaticamente levei a mão ao peito, e senti ali também um ferimento semelhante. Aquilo não parecia que iria desaparecer tão fácil. Levantei os olhos para ele, numa pergunta muda.

- Sim, ele poderia ter matado você.- Apesar de tudo,ele estava perturbado por este pensamento. - Graças aos céus você estava usando o crucifixo. Nunca o tire, ouviu? É a única coisa entre ele e você.

   Olhando com mais calma, analisando, ele estava mais um pouco mudado de há pouco. Olheiras sob os olhos, e uma aparência de emaciamento e extremo cansaço. Parecia um pouco mais velho, também. O sonho o afetara, de alguma forma?

- Você me resgatou no meu sonho, ou estou ficando louca?- Perguntei.

Ele me soltou de todo, e meio que me deu um pouco as costas, ainda sentado na cama ao meu lado. Me desequilibrei um pouco, mas tudo bem. Ele respirou fundo:

- Se eu falar tudo de uma vez, você irá enlouquecer. Mas digamos que sim, eu interferi no sonho. Mas não pude fazer muito. – Olhou para mim, por sobre o ombro. – Quem fez quase tudo foi você.

   Eu estava começando a sentir tonturas, da mistura de remédio e vinho. Ainda era noite fechada, e eu estava exausta, meio embriagada, tremendo,  mas com medo de dormir.

- Tenho medo de dormir de novo e ele... Voltar...

Ele se voltou para mim. Havia um pouco de pena, nos olhos cansados. A aparência dele piorava momento a momento, e ele parecia mais e mais velho. O que seria aquilo?

- Não tenha medo. Ele está fraco, não vai vir mais hoje. Você bebeu muito, está muito cansada, posso perceber. Durma, amanhã teremos uma longa conversa.

- Mas...- Protestei.

  Ele então segurou ambas as minhas mãos. Suas mãos estavam frias, como as de um morto. Apesar disto, eram reconfortantes, tranquilizadoras. Eu estava muito fragilizada, e tinha a impressão de que ele sabia o quanto.

- Escute. Se você precisar... Se quiser... Eu fico aqui, até adormecer.

- Faria isso? Mas...- olhei para ele,  sua fisionomia exangue.- Você parece tão cansado, também!

   Ele recuou um pouco, mas deu um suspiro, baixando a cabeça.

- Ok, estou cansado, sim, mas posso aguentar um tempo. Deite-se, ficarei bem aqui, ao lado da cama, nesta cadeira.- Sentou-se, e para encerrar a conversa, tirou o celular do bolso e mexeu em algo nele.

   O sono, o cansaço e a emoção começaram a cobrar o preço, e eu sentia meu corpo pesando, minha mente enevoada. Deitei novamente a cabeça no travesseiro macio,e fiquei olhando para ele, absorto na tela do celular, ao meu lado.

    O silêncio do quarto, apenas ponteado pelo sussurro do ar condicionado, a luz difusa iluminando o rosto dele, e fui pouco a pouco desligando da realidade, resvalando para o sono e para o alívio, quase sem perceber.

 

 

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PARTE II – 1844

Cristiano

    A sala de aula era empoeirada e quente, mal iluminada pelas janelas grosseiras. Mesas bastante precárias e compridas, nas quais um variado grupo de  garotos em tamanhos diversos se amontoavam.

    As aulas eram ministradas pelo padre, e ocupavam toda a parte da manhã das crianças. Um grupo heterogênero de filhos de colonos e indígenas, em uma escadinha que ia dos sete aos treze anos de idade.

   Naquele dia específico, as mesas foram colocadas à um canto da sala, abrindo um espaço ao centro, onde um banquinho estava estrategicamente instalado. Era o dia do conto, e todas as crianças esperavam ansiosas pelo momento. Bem, uma delas esperava mais ansiosamente que as outras.

   A mulher mais sábia de Caruru iria comparecer, para falar um pouco da cultura e lendas dos índios. Ela chegou pontualmente às sete e meia da manhã, fazendo uma parte ddo grupo vibrar e correr para abraçá-la.

   Iracy era a mais idosa do aldeiamento. Quase a mais idosa de toda a vila, com exceção de Seu Primaggio, que já contava seus 80 anos bem vividos.

   Todas as crianças sentaram ao redor de Iracy, para ouvir mais uma de suas Lendas. Crianças brancas, crianças índias e de todos os tamanhos, mas que naquele momento tinham mesmos interesses. Este dia de histórias na escola primária de Caruru era o acontecimento, e o Frei Eusébio gostava desta interação, já que tanto as crianças da vila da Fazenda, quando os pequenos Xucuru da aldeia frequentavam a mesma sala de aula.

  Iracy era uma bela descendente de sangue Xucuru, e crescera já à sombra da casa de fazenda. Com seus 68 anos, vira a fazenda Caruru voltar à sua glória, após o casamento de José Rodrigues de Jesus com sua sobrinha, Maria do Rosário. A partir aquele momento, a vila começara a prosperar. Iracy fora educada dentro da cultura de seu povo, e também catequizada pelo Frei capuchinho responsável pela capela, antes de Frei Eusébio.

   Todas as crianças ali presentes deviam à Iracy os seus nascimentos. Ela era a parteira da aldeia e, de certa forma, dividia com o médico local o mérito por trazer à vida os bebês da região.

   Iracy estava velha e cansada de todo o esforço, mas ainda se deslocava do assentamento indígena para contar histórias para os opipe, crianças. Tantos rostinhos ansiosos, na expectativa do que viria.

   Entre eles, um rostinho especial. E ela prometera à ele que contaria A HISTÓRIA  naquele dia.

   Cristiano Alencar. Parecia um pequeno anjo do Potay do povo branco, com aqueles cabelos cor de luz, e olhos iguais às folhas novas no galho. Ele era alvo de cor, mas tinha dentro de si a herança indígena, sem o saber. Carregava em si um fardo que ainda lhe era desconhecido.

  A anciã puxou para si o banquinho de madeira e couro, baixo, para ficar quase da altura das crianças que se amontoavam ao seu redor. A lenda que contaria naquela tarde era parte do arcabouço de toda a população indígena. Guardava dentro de si, no entanto, uma verdade insuspeita, oculta pelas camadas de fantasia. O pequeno Cristiano ali, era a prova viva de que as lendas eram reais.

A voz da mulher ressoou pela precária e rústica sala de aula:

 

“ No começo do mundo, nada havia. Mas Tupã, movendo as nuvens,  voltou seus olhos para Luaci, a mãe do céu sob o sol, e com ela teve uma filha. O espírito entrou no corpo da criança na terra,  e ela cresceu a mais bela e esperta da aldeia. O nome desta menina, filha do trovão com as estrelas era Ceuci.

   Naqueles tempos a mulher mandava, o homem obedecia. Ceuci ainda não era moça; mas se aventurava no mato, era teimosa. Sabia que não podia comer do fruto da Cucura, pois estava perto de virar mulher, chegavao período de sua carimã. E o fruto era proibido para as meninas.

 Mas eram tão belos e doces, que ela comeu mesmo assim. O sumo do fruto escorreu pelo corpo dela, pelos seios, e despertou a fecundação. Por causa disto, a cunhã foi mandada para o exílio, era inocente e donzela, mas mesmo assim, foi embora para ter o filho longe dali.

   No exílio, nasceu o menino, a quem ela deu o ome de Jurupari”.

 Iracy lançou os olhos sobre Cristiano, e viu a criança se agitar. O menino se inclinou mais para frente, olhos colados nela. Continuou o relato:

   “ Mas Jurupari era ainda mais forte que a mãe. Com sete dias de nascido, já parecia um menino de dez anos, e sua sabedoria ia além do mais sábio velho da tribo. Os guerreiros, os airidere, vinham de longe para ouvir as palavras do menino Deus. Aos poucos, ele foi sendo afastado da mãe. Era o profeta, o silencioso, e o próprio Tupã acompanhava a evolução do menino. A mando dele, Jurupari criou a nova ordem, onde os homens mandavam, ao invés das mulheres.

   Fez rituais para homens, onde nenhuma mulher podia entrar. Foi chamado o “Legislador”, pois trouxe para o mundo o poder para os homens. Ceuci, doente de saudades do filho, desobedeceu a lei e foi ter com ele durante uma festa. Tupã a fulminou na hora com um raio, e Ceuci caiu morta. Jurupari tinha o poder, mas recusou reviver a mãe.Ela voltou para o céu, e virou estrela.

   Jurupari era mesmo especial e grandioso. Guaraci, o sol, queria uma mulher. Mas teria de ser a mais karibuxi, a mais linda,  na terra. A mais silenciosa, que quase nada falasse, modesta e inteligente ao mesmo tempo. Pediu então a Jurupari que encontrasse essa moça, e a levasse até ele, para ser sua esposa.

   Seria muito difícil encontrar tal cunhã, mas Jurupari procurou pelos cantos da terra. Terminou por achá-la, em uma aldeia distante.

   Mas ele não contava cair de amor pela moça, a mais perfeita, mais bela, recatada e inteligente de todas. Jurupari estava apaixonado, e quis a moça apenas para si. Ele roubou a virgindade dela, fugindo com ela para longe de Guaraci.

   Não se pode fugir do sol, pois todos os dias ele ilumina a terra de canto a canto. Guaraci achou a ambos, e descobriu que a moça carregava dentro de si a semente de jurupari. Como castigo, o transformou em um feio peixe das profundezas, do lugar mais escuro onde o sol nunca chega no oceano. Jurupari fora despertado para a eternidade. Caindo nas profundezas das águas negras, ganhou então o mundo dos pesadelos humanos, que lá habitam.

  A moça implorou que não fizesse mal à ela e ao filho. Guaraci, implacável, amaldiçoou o bebê e toda a sua descendência. Os descendentes de Jurupari temeriam ao sol, não podendo andar de todo livres pelo dia. Povoariam pesadelos, sempre estariam com um pé em cada mundo, o físico e o espiritual. E não poderiam comer da comida humana, depois de acordados. É esta a maldição de Guaraci lançada pela traição, e que existe até os dias de hoje”.

   Todas as crianças bateram palmas e soltaram gritinhos animados pela história, menos Cristiano. Ele se limitou a apoiar o queixo nas mãos, encarando profundamente Iracy, que se sentiu perturbada.

   Ela sabia que as perguntas viriam, por isso não saiu da sala, mesmo quando Frei Eusébio permitiu que as crianças fossem ao pátio para jogar bola. Todos correram para fora, menos Cristiano.

   O menino levantou-se devagar, e mansamente foi para junto, colocando a mãozinha sobre a de Iracy.

-Obrigado por contar a história, “Dona” Iracy.- Agradeceu.

- É uma lenda bonita, não é mesmo?

O menino afirmou com a cabeça.

- Mas... gostaria muito de saber porque me chamam de Jurupari. As crianças da aldeia ficam me chamando disso...

A indígena se apiedou do pequeno. Com muita sorte, ele passaria pela vida, como tantos, e  jamais descobriria o porquê do apelido.

- Curumins podem ser malvados, meu filho. Você é um menino bonzinho, não é?

- Frei Eusébio diz que eu sou... – Ele  não parecia muito convencido disso.

-Então? – Ela se levantou, abraçando o menino.- Eu vi você nascer, e sei que seu coração é bondoso, meu filho. Vá brincar lá fora com os seus amiguinhos.

   Cristiano realmente não estava convencido do que a idosa falava, mas se deixou levar. Criança devia sempre obedecer aos mais velhos, era o que escutava o tempo todo.

  Lá fora, os meninos estavam agrupados, mexendo com um  graveto em algo. Curioso, ele foi até o aglomerado de crianças.

   Era um rato quase morto, e as crianças estavam solenes, remexendo no animal. Cristiano tentou conter a repulsa e a pena. Não gostava de ver nada sofrendo.

- Parem com isso, - Pediu- ele está sentindo dor, não percebem?

Um dos meninos, o maior deles, levantou a cabeça:

- se nao quer ver, vai embora! Não estraga a brincadeira.

   Cristiano olhou para o animalzinho. Parecia que fora atropelado por uma carroça, ou pisoteado por um cavalo. Estava meio esmagado, com a barriga aberta e as entranhas se espalhavam molemente para fora. O animal ainda estava vivo, e respirava pesadamente. Nunca iria conseguir salvar o bicho, e a única coisa que podia fazer era acabar com o sofrimento dele. Num impulso, o menino tomou a vareta de madeira da mão do outro garoto e, rapidamente, enfiou no peito do rato, matando-o. 

   Todos protestaram em um grito. O indiozinho maior de todos, com raiva, empurrou Cristiano ao chão, sentando sobre ele e distribuindo socos no menino menor:

- Isso é para você aprender a não se meter nas coisas, canecuuinengo proriú*!

Cristiano tentava proteger o rosto com as mãos, quando de repente, o peso da outra criança saiu de sobre ele. Abrindo os olhos, viu Frei eusébio segurando o indiozinho pela orelha:

- não quero saber de brigas e contendas aqui! Vai ficar de castigo. E você- o frei olhou severamente para Cristiano – Vá para casa! Precisa limpar o rosto.

.   Cristiano se levantou, olhando desafiador para o índio que batera nele. Não tinha medo, nem arrependimento de ter feito o que fez. Deu as costas a todos e voltou pela estrada de terra que levava à sua casa.

 

*Homem branco que acompanha os índios

 

   Aurora viu, da janela, o filho chegando. Parecia machucado, então ela largou imediatamente o almoço que guardava, e correu o que restava do caminho

para alcançá-lo. Abraçou o filho pequeno:

 

- Meu filho, o que houve? Está machucado!

- Eu... bateram em mim, mamãe. Mas estou bem.- Afirmou.

   Aurora ajoelhou-se, para ficar da altura do filho. O rosto do menino estava machucado, e as mãos, esfoladas. Os olhos, no entanto, brilhavam intensos, numa espécie de ardor interno.

- Você... fez algo errado, Cristiano?

O menino levantou o queixo, com uma expressão de orgulho. A maneira como elevou a cabeça, o brilho frio nos olhos verdes... O coração de Aurora falhou uma batida. Igual ao pai. Era a expressão facial de Hefesto.

- Não fiz nada errado. Os meninos estavam torturando um animal e eu impedi de continuarem.

A mãe levantou-se.

 Bem, venha para dentro. Vou fazer um curativo nestes machucados.

   Cristiano seguiu a mãe, para dentro de casa.

   Ela o sentou em uma cadeira, pegou um pouco de água e ungüento medicinal. Delicadamente limpou os arranhões da face clara do filho.

 - Você sabe, Cristiano, - começou a falar casualmente – que não deve se deixar levar pelo que estas crianças falam ou fazem.

O garoto, que estava meio cabisbaixo, levantou vivamente a cabecinha:

  - Não gosto quando fazem coisas más, mamãe. Eles ficam repetindo que eu sou o mal, que levo uma parte do demônio dentro de mim, e eu sou o mais comportado da sala! Sempre obedeço o frei, ajudo a limpar a lousa, faço as minhas orações!

   Aurora sentia o peito apertar. Guardar aqueles segredos estava se tornando cada vez mais difícil, à medida que o filho crescia. Instintivamente, a mulher levou a mão ao pescoço, onde estava o relicário. Dentro dele, a única imagem que restara de Hefesto, o amor de sua vida: uma miniatura pintada .

   Um dia, o filho teria de enfrentar todo o sofrimento de seu legado, talvez fazer escolhas que o destruiriam por dentro. Mas naquele momento, ela calou as verdades que trazia no coração. Olhou Cristiano bem dentro dos olhos esmeraldinos e falou a mentira de sempre:

- Você é um garoto bom, assim como o foi seu pai. Um menino de ouro, que veio para abençoar a minha vida. Nunca se esqueça disso, meu filho, eu o amo e sempre vou lutar pelao sua felicidade, custe o que custar. Continue praticando o bem, e não deixe que o que falam o faça desviar de seu caminho.

   Ela o abraçou, apertando nos braços, a alma em conflito. Não sabia por quanto tempo seria capaz de se interpor entre o filho e seu destino irremediável. Mas o faria, mesmo que morresse no processo, jurou de si para si, silenciosamente.

 

 

 

 


 

Caruru, 1852-1856

 

   À medida em que o tempo passava, o garoto ficava mais e mais inteligente e belo. Alto, com um porte denotando a nobreza da qual descendia. Aurora temia pela vida do filho, mas sabia que em breve deveria levá-lo para o mundo.

 

   Talvez se ele pudesse estudar na faculdade de direito do Rio de Janeiro, bem longe do Recife e da presença maligna do pai, a vida se tornasse mais suave.

 

Aurora estava cansada de se esconder, cansada de fugir.

 

Para o jovem, o pai estava morto, mas esta não era a verdade. Uma mentira que fora contada por toda a vida, aos poucos se tornava fácil, virava quase uma verdade.

 

   Hefesto estava vivo, em Recife. Provavelmente, ainda levava a vida criminosa e desregrada de sempre.

 

   Uma vez ele dissera à Aurora que apenas ela poderia redimi-lo de seus pecados, mas ela sabia que ele mentia.  Hefesto adorava cada segundo de sua existência devassa. Ela seria tragada para aquele mundo distorcido, e perderia a humanidade. Provavelmente, pagaria com o sangue do próprio filho.

 

   Como evitaria que Hefesto soubesse da existência do rapaz?

 

   Cristiano tinha então quinze anos . Era o ano de 1852 e Caruru crescia lenta e progressivamente . Já então era uma vila, e o pároco, Padre Antônio Jorge Guerra. O rapaz acabara de completar os estudos ginasiais e científicos. Fora isto, lia quaisquer livros que lhe caissem em mãos.

 

    Pelo hábito da leitura, ele completou as lacunas de sua educação precária. Aos nove anos, começou a explorar a biblioteca da igreja, e desde então, não mais parou de ler.

 

   Ele se apaixonou pelos poetas românticos, de um jeito irremediável. Escrevia poesias sobre amores que desconhecia, e no seu íntimo, aguardava pelas dores avassaladoras do coração e dos amores impossíveis que em breve viriam.

 

   Mantinha os seus sonhos bem descritos em cadernos, com letra caprichada. O fazia desde os 13 anos. Escrever , para Cristiano, era algo irresistível.

 

   Seus diários guardavam sonhos, ilusões, romances e desejos para o futuro. Ás vezes, inspirado pelos seu escritores românticos, pensava na morte como uma libertadora das dores que nunca sentira. Suas poesias falavam de um sofrimento nunca antes vislumbrado.

 

   Bem cedo despertara o interesse nas mulheres e meninas da região. O seu ar sonhador e aparentemente melancólico fazia com que as jovens quisessem cuidar dele, abraçá-lo e tê-lo sempre ao lado.

 

    Naquele tempo, um homem devia fazer o que deve ser feito, e mesmo seu jovem amigo José Rodrigues, bisneto do fundador da Fazenda Caruru o incitava a ser um pouco mais interessado nas garotas que gravitavam ao redor dos dois.

 

 - Ultimamente você tem feito as “minhas garotas” suspirarem , não é mesmo, amigo?- José troçava do rapaz sério, que estava com o rosto dentro do livro. Cristiano riu um pouco, levantando a cabeça.

 

 - “Tuas garotas” ... não és um pouco pretensioso demais, José ? – Cristiano o olhou atravessado, um brilho divertido nos olhos .- Parece que estás a formar um harém, aqui em Caruru!

 

   José se espreguiçou, rindo:

 

 - Não posso perder minha fila de admiradoras para um frangote como tu , - espicaçou – que ainda nem perdeu o cabaço...

 

- Pára com isso! - Fechou o livro, envergonhado.

 

   José rodrigues era o inverso perfeito de Cristiano: Moreno de tez queimada, 17 anos- dois a mais que o garoto - tipo sertanejo de olhos castanhos maliciosos e cabelos da mesma cor, lisos. José era o mais rico da vila,obviamente,  e fazia com que todas as garotas o imaginassem como um futuro seguro, além de sua boa aparência.  Era também o mais sedutor, o que se gabava de ter desvirginado um sem-número de mocinhas.          

 

   Cristiano, por sua vez, não gostava de se aproveitar das jovens ingênuas da vila, guardando uma certa distância respeitosa. Quinze anos, ainda virgem. Era uma idade avançada para isso, no padrão do interior patriarcal do século XIX.

 

   Estavam andando pela rua principal: José pensando ainda na conversa, Cristiano absorto com um livro, como sempre. O caderno de anotações estava no bolso da calça.

 

   De repente José parou, como que tomado de uma ideia genial. Cristiano observou de soslaio. Nada de bom vinha, quando o amigo mais velho fazia aquela expressão.

 

- ”Péra”, que vou resolver o teu problema, mas é já! – O bonito rapaz moreno deixou Cristiano no meio da rua, estupefato. Mas, como estava acostumado com estes arroubos do colega, não deu muita atenção. Tomou o rumo da igreja, onde havia a sombra frondosa de árvores. Lugar perfeito para ler e escrever ao ar livre.

 

   Na realidade, José Rodrigues tomara o rumo para a Rua do Pecado.

 

   A rua mais mal-falada da cidade, onde apenas “gentinha” morava: Alguns negros forros, índios, brancos sem dinheiro ou nome de família. Ao final da estradinha, ficava a Casa Vermelha.

 

   O nome não fazia apenas referência à fachada da casa de madeira, pintada de um tom de maravilha espalhafatoso, mas também era relacionado ao mètier  que lá acontecia. A mais velha profissão do mundo.

 

    Não era uma casa luxuosa, nem as moças tão encantadoras. Mas eram mulheres experientes, em idades diversas, que conheciam seu lugar e que não se metiam em encrencas .  Quando José Rodrigues lá chegou, impetuoso, todas já o mediram de cima a baixo.

 

  José não era apenas atraente, mas também rico e generoso. Mas o moço não estava ali apenas para proveito próprio.

 

   José subiu as escadas e entrou com toda a familiaridade de quem era cliente contumaz. Sua primeira vez fora com 13 anos, e o próprio pai o levara lá, pagando a prostituta mais cara da casa. Bem, Cristiano não tinha pai , então ele, como amigo, sentia o dever  de fazer o favor ao rapaz. Saudou algumas das barregãs que conhecia em uma profundidade bíblica, e então se dirigiu a uma em particular.

 

   A mais bonita dali. Rubi.

 

   Não era o nome verdadeiro da moça, e Deus sabe qual seria, àquela altura do campeonato. O nome se dava pela aparência: mais jovem que a maioria,cerca de uns 20 anos, cabelos negros e lábios cheios. Corpo lindo, e sempre usando vestidos vermelhos, provocantes. Certamente tinha sangue misturado, indígena e branco, o que a fazia mais interessante  ainda.

 

   Rubi ficou lisongeada pela atenção de José Rodrigues e mais ainda pela quantidade de dinheiro oferecida por ele à ela. Apenas para tirar o cabaço de um garoto? Fácil.

 

   Fechado o negócio, José saiu a procura de Cristiano. Sem desconfiar, o menino estava sentado à escadaria da igreja, escrevendo.

 

   -Para onde foi? - levantou a cabeça das páginas do caderno.- Você simplesmente desapareceu, José. Isso não se faz. Encontrou alguma dama para dar suas atenções?

 

José, sorrindo limitou-se a dar a mão para ajudar o amigo a levantar.

 

-Não encontrei uma dama para mim, como verás logo. Vem comigo.

 

   Seguiram andando, tomando o rumo da rua principal e depois dobrando à esquerda. Cristiano conhecia de fama a casa vermelha da Rua do Pecado, e logo entendeu aonde iam.

 

- Não posso pagar isto, José... eu...

 

-Esqueça. – José passou a mão pelos cabelos bem cuidados. – Aceite como um presente de aniversário adiantado, certo?

 

  Entraram na casa, e logo José o apresentou a Rubi. A jovem parecia impressionada pela aparência de Cristiano. Entabularam uma conversa superficial, enquanto José ia à procura de sua favorita.

 

   Rubi levou Cristiano para o quarto. Era um quarto simples, com uma cômoda, bacia e jarra de água, espelho na parede. Ao centro, uma grande cama de madeira, com colchão de palha e lençóis aparentemente limpos. Cristiano olhou a tudo, tentando imprimir na memória aquele momento.

 

  A moça tomou sua atitude contemplativa como timidez, e foi logo orientando-o:

 

- Fique à vontade. Pode tirar a roupa e pendurar ali- Apontou para um cabide.

 

   Cristiano estava envergonhado, nunca ficara sem roupas na frente de ninguém, mas iria até o fim. Tomou coragem, e começou a se despir.

 

   Uma coisa curiosa à respeito do rapaz: sua capacidade em aprender. Sempre procurara compreender o melhor possível tudo o que lhe ensinavam. Constatou que sexo não era muito diferente, neste sentido. A princípio timidamente, depois com mais paixão,  ia fazendo tudo o que Rubi falava, e qual a surpresa da moça ao perceber como ele absorvia bem . Muito bem, na verdade.

 

   Tão bem, que a fez gritar de prazer. Muitas vezes.

 

-Como? – Ela o olhou, exausta na cama, confusa e descabelada, algum tempo depois.O rapaz deu de ombros.

 

 Cristiano realmente era dedicado .E, sem dúvidas, aquilo era um aprendizado.

 

   Estava colocando de volta as roupas, um ar sonhador no rosto, quando Rubi o puxou contra si:

 

- escuta.- Sussurrou ela.

 

Ele se virou, ela estava ainda completamente nua .

 

- José pagou por esta primeira vez, mas...- ela o enlaçou, sem pudor- ...pode vir sempre que quiser. De graça.

 

   O rapaz sentiu a jovem estremecer em seus braços, e então levou-a de volta à cama desarrumada. Uma segunda vez.

 

   Ao saírem da casa vermelha, muito mais tarde, meio embriagados e cansados, Cristiano contou ao amigo estupefato.

 

  - O quê?- José estava chocado.- Mas nunca conheci uma puta, com o perdão da má palavra, que não adorasse dinheiro. De graça !? Como conseguiste esta façanha?

 

   O rapaz não respondeu, pois já havia tirado o caderno do bolso e estava tentando registrar as impressões da experiência. José Rodrigues não o deixava em paz:

 

- Fala, por Deus! Não é possível que não tenha sido algo que você fez com ela, foi? Mas você nunca antes deitou com uma mulher, como ... – Balançou o amigo mais novo pelo ombro- Cáspita! Me responde, Cristiano!

 

   Cristiano estava concentrado, escrevendo no caderno. Levantou a cabeça e encarou um José Rodrigues confuso e curioso:

 

- Aprendo rápido.- Respondeu, simplesmente.

 

   De repente, a fama dele de excelente amante  parecia ter se alastrado na casa vermelha. Cristiano nunca teve, desde então, de pagar por favores sexuais. Sempre havia alguém mais que satisfeita em se deitar com ele.

 

   Quando ia com o amigo ao prostíbulo, esse ficava resmungando:

 

- Criei um monstro.

 

   Mas o que era atraente em Cristiano, acima até mesmo de sua habilidade amorosa, era a aura que ele parecia emanar. Tão lindo e jovem , com sua pose aristocrática. Ar sonhador na face, cabelos dourados e olhos de um verde cor das folhas novas das árvores.

 

  No agreste,  onde a tez queimada do sol era algo comum a todos, o rapaz parecia destoar, como se o sol tivesse encarnado em uma figura luminosa. Sua pele alva, um verso romântico nos lábios cheios e vermelhos.

 

   Sempre gentil e solícito, gostava de ajudar. Fora coroinha da capela desde seus 9 anos, e ainda auxiliava o padre no que ele precisasse. A mãe o educara para ser o melhor, e dar o melhor de si. Ela percebera como o filho parecia brilhar, como era inteligente e encantador.O quanto ele era parecido com Hefesto, o pai, em todos os sentidos.

 

Também Hefesto fora como uma luz, tão forte que a cegara quase completamente... Aurora temia que Cristiano terminasse descobrindo a verdade sobre seu pai.

 

   A mulher sempre fora frágil de saúde, e sentia que não viveria muito. Tinha a urgência de deixar as coisas em ordem, para o caso de algo acontecer. Temendo por sua saúde, foi ter com Iracy no assentamento indígena. Lá descobriu seu problema pulmonar.

 

   Entrou no assentamento um pouco receosa. Não pela falta de costume, mas nunca antes fora lá para resolver algo tão essencial, tão íntimo. Iracy a recebeu na porta de sua casa modesta de barro.

 

-Pode entrar, Senhora de Alencar.- A indígena  puxou uma cadeira rústica para a mulher. – Sente-se.

 

Na ausência de curandeiros, Iracy ajudava como podia. Algumas vezes, auxiliava no consultório do médico modesto que havia na vila. Mas basicamente, o que ela poderia fazer era ascultar a respiração de Aurora.

 

   Ao colocar o ouvido no peito descompassado da mãe de Cristiano, Iracy percebeu o quão ruim estava a saúde da mulher. Havia barulhos ocos, e um gorgolejar estranho nos pulmões.

 

-Senhora de Alencar, eu lamento muito .- A índia estava consternada.- nada posso fazer, a senhora deve ir no doutor. Posso dar algumas beberagens , um lambedor, mas não tenho como curar a senhora.

 

   Aurora já o sabia. Sua vida sempre pareceu caminhar para um desfecho trágico, de um jeito ou outro. Se não o fora nas garras de Hefesto,o seria bem nas da morte prematura.

 

-Não tenho como pagá-la, Sra. Iracy, mas agradeço . – Tomou as mãos da idosa entre as suas. – Preciso agora colocar minha casa em ordem.

 

  Iracy levantou vivamente a cabeça. Olhou a outra:

 

- É um peso demasiado para a senhora. O rapaz ainda não sabe?

 

 Aurora devolveu o olhar perspicaz da índia mais velha. Meneou a cabeça lentamente:

 

- A senhora sabe de tudo? Tudo mesmo?

 

- Como poderia não saber, Senhora de Alencar? Trouxe este menino ao mundo. – Iracy pôs a mão sobre as de Aurora . – E conheço o seu coração. A senhora jamais ficaria ao lado do pai dele. Não é mesmo?

 

 Aurora estava um pouco envergonhada. Se sentia um pouco pecadora, quase uma prostituta. Baixou a cabeça, com as faces vermelhas.

 

-Não precisa se sentir assim, Senhora .- Iracy levantou-lhe o queixo. Nos olhos da idosa, Aurora encontrou apenas compreensão.- Sei muito bem quem  é o pai de Cristiano. O tipo de monstro que ele é. Sair de perto dele foi o melhor que poderia ter feito.

 

Iracy abraçou Aurora. A mulher mais jovem estava com os dias contados na terra. E precisava realmente organizar tudo, para que o filho não sofresse tanto.

 

 A doença cobrou seu preço muito rápido.Cristiano mal completara seus dezesseis anos, quando a mãe começou a cansar mais fácil. A figura de compleição frágil finalmente sucumbiu à doença que ia aos poucos se instalando em seu peito.

 

   Mesmo o doutor seria inútil. Não era algo curável não para as tecnologias e medicina de 1853. O que podia ser feito era diminuir os devastadores sinais da doença, mantendo Aurora em um relativo conforto.

 

   Cristiano não podia acreditar em seu destino. De repente, sobre seus jovens ombros, um peso demasiado grande foi colocado. O rapaz passou a se dedicar totalmente a cuidar da mãe, que ainda tentava fazer  algumas coisas na casa, mas se cansava facilmente. Nestas horas, ele assumia. Não havia mais tempo para brincadeiras.

 

   Ele ia ao assentamento para comprar remédios, chás e lambedores, e lá conversava bastate com Iracy. A idosa sabia que tudo aquilo era pesado demais para ombros tão jovens. Tentava consolá-lo , na medida do possível.

 

- Deus não nos dá nada que não possamos carregar, Cristiano . – Ela falava, acariciando os cabelos cacheados do rapaz, com ternura.

 

   Cristiano, apesar da doença da mãe, continuava suas leituras e não deixava de escrever suas impressões no diário. Pela primeira vez, ele estava sofrendo. Não a dor forjada dos novos românticos, mas a dor real de perder, dia a dia, seu ponto de referência, seu norte.

 

   Por outro lado, ele se tornou mais fechado  ainda. Às vezes, recebia a visita de José Rodrigues, e saía com o amigo para espairecer um pouco. Mas José não entendia exatamente os problemas do amigo.

 

   A mãe sempre prestava serviços de bordado e costura, e vendia alguns doces, o que provia as necessidades da casa. Acamada, ela não tinha mais renda. E as despesas aumentaram consideravelmente, por conta da doença.  Cristiano correu atrás de algum trabalho, para cuidar das finanças. Com 16 anos, não tinha muito o que fazer, mas os estudos o ajudaram.

 

   Começou então a trabalhar auxiliando o médico de Caruru, justamente para poder ter mais acesso à livros e tratamentos. Mas o médico, Também  pobre e sem recursos, pagava pouco, e mal dava para segurar os gastos.Algumas vezes o próprio médico fora à casa do rapaz, mas, assim como Iracy constatara logo de início, era algo incurável.

 

   Brancos não se misturavam muito com indígenas, então ele não podia fazer muito mais do que estava fazendo. Conseguiu uma moça do assentamento para cuidar da mãe, dar banhos, fazer companhia enquanto ele estava no trabalho. Ao voltar para casa, ele assumia , e muitas vezes adormecia sentado, apoiado na cama da mãe.

 

   Ainda o denominavam de Jurupari, ou Yurupari, quando achavam que ele não estava ouvindo , por suas costas. Isso o amargurava um pouco, principalmente com o emocional fragilizado como estava.

 

   Criado no seio do catolicismo, já era meio que arraigado o conceito de Jurupari sendo um demônio, o mal, as trevas. A amargura vinha justamente do fato de que, apesar de se esforçar tanto para ser uma pessoa boa, cuidar da mãe e trabalhar com dignidade,  estar sempre sendo associado ao mal, sem ao menos saber o porquê.

 

   Certa vez conseguira extrair da mãe que podia ser algo relativo ao seu falecido pai, mas muito por alto. Ela se tornara evasiva, logo depois. De Iracy, por sua vez, ouvira que, quando ele nasceu, ela sentiu a força do “Deus Legislador” ao seu redor. Como se o poder de Jurupari estivesse ao redor daquele momento.

 

   Mas se era um Deus do mal, ele não queria esta força. Jamais trocaria sua alma imortal por um poder advindo de algo maligno. Supondo que isso fosse possível. Então Cristiano vivia sua árdua tarefa diária, cuidando da mãe, e se policiando para ser sempre alguém melhor.

 

   Os arroubos de desejo que sentia, pelas moças e prostitutas da cidade, às vezes sublimava, outras vezes não: sua natureza apaixonada ainda prevalecia por sobre a castidade forçada, e afinal, ele era apenas um adolescente em formação, com impulso sexual e carências amorosas, como qualquer outro. Nestas horas, ia com José à  Casa Vermelha, e lá se deixava enlevar pelas carícias das mulheres.

 

   As moças da casa de tolerância eram atraentes, mas preferia se manter reservado. Não alimentava nenhum namoro com jovens casadouras da região. Além do mais, a vida dura diária, equilibrando estudos autodidatas, cuidados da casa e da mãe não lhe deixava muito tempo para farras. Sempre buscando o equilíbrio, sempre lutando contra a alcunha de demônio que carregava.

 

    Três anos inteiros se passaram na rotina excruciante de lutar pela melhora  de Aurora, vendo-a ficar cada vez mais fraca, etérea e  distante do mundo dos vivos. Ele a alimentava como a um bebê, e mesmo o mais leve movimento a fazia perder o ar com dores terríveis. Cristiano sentia os dias de sua juventude escoando pelas frestas da janela cerrada do quarto da doente.

 

      Terminara os estudos desde os 15 anos, mas não possuía dinheiro para um curso superior. Ás vezes , entre uma tarefa e outra, se pegava pensando no seu futuro, se ainda teria um. Para ele,  a vida se resumia àquele quarto abafado, o respirar difícil da mãe, os cheiros de doença e morte.

 

   Mas Cristiano , assim como qualquer ser humano, não estava preparado para obter sua liberdade, de repente. Pois é assim, de repente, que acontece. Um dia, alguns meses antes de seu aniversário de 20 anos, a mãe acordou muito pior.

 

-Filho- Ela chamou – venha para perto de mim.

 

   Cristiano presentia o fim. Estava ministrando um pouco de láudano para fazê-la dormir, mas as doses aumentavam dia a dia. Naquele triste dia, Aurora acordou por um fio. E ela sabia disso.

 

   Aurora trouxe Cristiano para perto de si , pois sua voz era quase um sussurro:

 

- Preciso falar contigo, meu filho. Sobre o teu pai.

 

Cristiano a olhou, um tanto confuso. O pai morrera antes dele nascer. O que haveria a saber, além disso?

 

- Mamãe, depois conversamos sobre isto, você precisa descansar, recuperar suas forças...

 

-Não! – Ela arquejou alto as faces avermelhadas pelo esforço. Ainda era bela, mesmo com aquele ar cansado de anjo caído.- Você... precisa saber da verdade.

 

 Aurora começou a história, diante dos olhos incrédulos do jovem.

 

-Seu pai...Hefesto... ainda está vivo.

 

Cristiano sentiu um baque dentro do coração. Isto era uma boa notícia? A mãe parecia mais e mais torturada:

 

- Mãe, mas... o que devo fazer? Ele... abandonou você?

 

Ela o olhou, firme, queixo erguido : -Eu que o abandonei.-respondeu, obstinada.- Ele...é um monstro, meu filho

 

A mãe, com o sopro de vida que restava, contou sobre os crimes do seu pai. Sobre a doença que ele adquiriu em sua vida devassa, que o consumia, e que o levou a buscar rituais de magia negra, para se curar. A cura, vinha de uma única fonte.

 

 -Ele era auxiliado por um criado negro. – A mãe deixou cair algumas lágrimas.-Este criado conseguia para ele o... remédio.- Ela virou o rosto, na fronha do travesseiro. Envergonhada, horrorizada demais para encarar Cristiano.- Era o fígado. Fígado de crianças, quanto menores, melhor. O homem as atraía, com doces e promessas, então as matava. E levava o fígado para seu pai.

 

Um assassino de crianças. Cristiano sufocava no peito o horror de tudo aquilo, mesclado a uma desconfiança a respeito da sanidade mental da mãe.

 

   Que o pai pudesse estar vivo, ele nada dizia, poderia ser possível. Mas quanto a ele ser um assassino, que matava crianças? Parecia um delírio, um devaneio.

 

-Não estou louca! – Aurora parecia adivinhar o que o filho pensava no momento.- Ele dizia...que me amava. Que ficaria comigo,que EU era a salvação dele. – Ela riu amargamente.- EU!  Mas como eu poderia ficar com alguém assim? Um monstro! E se ele quisesse matar você? Se alimentar do proprio filho?

 

- Como ele nunca foi pego, mamãe? – Cristiano perguntou suavemente, também em um fio de voz. Não conseguia crer nas palavras da mãe. Um criminoso desse porte, não ser preso...

 

Aurora soergueu o corpo, fracamente :

 

-Desde quando ricos são caçados pela polícia? Desde quando nobres pagam por erros que cometem?

 

Se deixou cair ao colchão, abatida:

 

- Ele é rico, influente. – Ela o olhou, entristecida. – Uma das famílias mais influentes de Recife. Nunca, jamais seria pego. Não havia provas suficientes, nada que ligasse ele e o criado às crianças encontradas mortas. Sempre havia dinheiro junto aos corpos, para comprar o enterro e o silêncio.

 

  Cada palavra descortinava para Cristiano todo um novo panorama. Seu pai era rico e de família nobre. E também um assassino. Era algo difícil de lidar.

 

   A mãe respirava com mais e mais dificuldade. Não conseguia falar direito. Apontou para a gaveta do criado mudo. Cristiano a abriu. Lá dentro havia dois objetos : Um lindo e bem elaborado abridor de cartas, adornado com conchas , que parecia feito de ouro, o relicário com a imagem do pai, e um papel meticulosamente dobrado.

 

   Cristiano pegou o papel, abrindo-o.

 

-É... o endereço de minha irmã. Irene, ela mora no Recife. Você  irá ter com ela quando... tudo acabar.

 

-Não, mãe! – Cristiano protestou alto. – Você viverá. Isto é uma doença, e as pessoas ficam curadas de doenças!

 

A mãe pôs a mãozinha fria por sobre a de Cristiano, que estava cabisbaixo, após a explosão.

 

-Pegue estas três coisas. Você vai para a casa de Irene, e depois arranja um lugar para si. Pde ser em outra cidade, mas...

 

O rapaz levantou a cabeça, olhos marejados.

 

-Olhe bem para esta foto de teu pai. Nunca o procure. Marque bem o rosto dele, Cristiano. Ele é o mal encarnado.

 

- Mas mamãe, - O rapaz estava confuso.- Como vou reconhecê-lo? Esta miniatura tem pelo menos vinte e dois anos, ele deve ter mudado muito. Está  com uns quarenta e tantos anos!

 

A mão suave da mãe, de repente, apertou o braço de Cristiano,igual uma garra. De forma dolorosa, uma força insuspeita. O olhou com fisionomia febril:

 

- Eu o conheci com esta aparência em 1835. Eu tinha dezoito anos mal completados. Ele, a princípio me disse ter vinte. Olhando para seu rosto aqui na imagem, parece mesmo ter vinte anos, não é?

 

   A mãe pegou a imagem nas mãos, contemplando a face jovem do retrato. Passou os dedos de leve por sobre o vidro.Ainda o amava, àquele demônio. Levantou a cabeça, encarando o filho, segurando a imagem voltada para o rapaz:

 

- Mas ele tinha 37. TRINTA E SETE ANOS. Hoje teria? Cinquenta e nove.-Disse, com um suspiro.

 

- Impossível! – Aquele rosto, macio e quase imberbe, de um garoto ainda,  era jovem demais para ter idade mais madura. Algo estava errado, muito errado.

 

- Ele mesmo me confessou  tudo. Toda a história sórdida. Ele nasceu em 1798. Já estava com aquela aparência a mais de 17 anos, quando o conheci.- Aurora abaixou a cabeça, murmurando, quase que para si mesma:- Aposto que ainda hoje está do mesmo jeito.

 

Cristiano pegou a imagem das mãos da mãe. Todas aquelas emoções a estavam esgotando. Ela fechou os olhos, um tanto quanto exausta.

 

-Preciso dormir, Cristiano, mas prometa-me – apertou a mão do filho dolorosamente.- PROMETA!  Que jamais irá procurar Hefesto. Ele nada trará de bom para sua vida! Prometa, Cristiano, para que eu possa morrer em paz!

 

O rapaz entrou em pânico:

 

-Prometo, prometo tudo o que quiser, mãezinha. Mas descanse , por favor. Nunca procurarei este homem na minha vida, eu prometo!

 

Ao ouvir as palavras, o rosto da mulher suavizou, como que aliviado. Ela recostou-se no travesseiro, por fim. Parecia bem consigo mesma. Em pouco tempo, adormeceu suavemente.

 

  Cristiano ficou um tempo suspenso no ar, transido de horror,  até que, lentamente, soltou o ar pesado dos pulmões. O que fora aquilo? A mãe nunca falara tanto a respeito de seu passado. E quando o fizera, fora sobre estas coisas fantásticas.O que fazer?

 

   Ele queria ver o pai. Sempre o acreditara morto, e descobri-lo vivo, em Recife, era por demais incrível.Não podia acreditar na história absurda que a mãe contara. Se tudo fosse verdade, o pai teria cerca de quarenta e um anos. Ainda um homem em seu vigor físico, provavelmente casado e com uma família. Ele, Cristiano, era um bastardo.

 

   Mas prometera à mãe, e iria cumprir a promessa. Jamais procuraria o pai. Pensou que, se ele realmente o quisesse por perto, teria movido mundos para encontrar a ambos. Se não o fizera, não merecia sequer seus pensamentos confusos.

 

   Saido do quarto da mãe, Cristiano foi para seu próprio quarto, exausto tanto física quanto emocionalmente. Tirou lentamente as roupas e se jogou na cama.

 

  Aquele dia a dia cansativo o esgotava pouco a pouco. Era como se a vida nada mais tivesse para ele além de dores e trabalho. Em seus dezenove anos, ele se sentia como se já fosse um homem velho. Fechou os olhos esmeraldinos e rezou silenciosamente, para que a mãe ficasse logo boa, e que ele pudesse voltar aos dias mais tranquilos.

 

   Prometeu para si mesmo que iria continuar a trabalhar e ser uma pessoa melhor a cada dia. Apenas, Deus, ó Deus todo poderoso, rogava que sua mãe pudesse se recuperar. Ele seria um rapaz exemplar, se isso acontecesse.

 

  Adormeceu ainda com a oração nos lábios.

 

  O dia seguinte se mostrou confuso. Aurora não acordara. Estava presa em um sono estranho. Cristiano pôs um espelho aos lábios dela, e ainda havia uma tênue respiração.

 

   Ele vestiu-se rapidamente e correu até o médico. Pediu-lhe, envergonhado, a consulta. Com pena de seu auxiliar, o médico o seguiu até a casa pequena.

 

  Fez todos os exames na mulher desacordada, e nada. Ela simplesmente não reagiu a nada.

 

- Temo que ela esteja no que chamamos de coma. A  pessoa sob este estado Não responde a nenhum estímulo. É um mistério, para nós médicos, como o paciente comatoso se comporta. Teremos de aguardar.- O médico pôs a mão no ombro do jovem funcionário.- Cristiano, você tem de se preparar para o pior. Ela está muitíssimo fraca.

 

  O rapaz não conseguia acreditar. No dia anterior ainda a mãe lhe contara tudo aquilo,e agora... Estava no limiar entre a vida e a morte. Ele se sentia preso em um pesadelo.

 

   Quando o médico saiu, ele voltou para o quarto. Estava olhando a mãe, adormecida igual uma princesa de conto de fadas, que poderia jamais voltar do mundo dos sonhos. Um brilho na mesinha capturou seu olhar, e ele lembrou dos objetos que ela lhe entregara na véspera.

 

   Sentou-se ao lado da cama e do criado mudo, e pegou um a um. O pequeno e intrincado abridor de cartas, algo muito caro e delicado.Passou os dedos pelos relevos de conchas e estrelas-do-mar. Havia algo próximo da lâmina, ele percebeu. Trouxe mais perto dos olhos, parecia...sangue. Mas não podia afirmar.

 

   Largou o abridor, e tomou nas mãos o colar relicário, abrindo-o. O retrato do pai o encarava, a mesma expressão franca, o belo rosto jovem. Seria este homem realmente tão mau quanto a mãe dissera? Era difícil de acreditar. Menos pelo fato de ela  tê-lo chamado de demônio, pois era assim que todos chamavam a ele, Cristiano. Jurupari. O legislador, para os índios. O demônio cristão.

 

   Se ele era filho de um demônio, por que não seria um, também? O pensamento o perturbou. Lutava a tanto tempo contra qualquer manifestação maligna, de ira, desejo, gula ou inveja, que às vezes duvidava se Deus realmente o apreciava.

 

   Estava naquela roda viva de cuidados da mãe há três anos. Pouco aproveitara da vida, e tudo fora  apenas uma luta inútil tentando tirar a mãe das garras da morte, dia a dia

 

- Mas a morte quer você, mãe.- Sussurrou, olhando a moça adormecida.- Ela a quer com mais intensidade que consigo lutar contra.

 

Põs a cabeça entre as mãos, em desespero. O que faria?

 

Foi uma noite longa, escura e angustiante. Ele jamais esqueceria aquelas horas, as mais escuras de sua vida até então.

 

   A um dado momento, a mãe respirou alto. Ele sobressaltou-se.

 

Aurora abriu os olhos, fixados no teto do quarto. O rosto suavizou-se em um sorriso terno.

 

- Hefesto... – falou, em um suspiro. E então, morreu.

 

   Cristiano a olhava hipnotizado. Jamais vira uma pessoa morrer antes, e quase distinguiu  o momento em que a mãe, antes cheia de vida, rosto corado e alegrias, se transformou em algo inanimado, inerte. A lividez do corpo, a falta da essência, da alma que ali estivera, alguns momentos antes.

 

   Não conseguiu chorar. A mente se fechou instantaneamente em um modo prático. Tempos depois, ele não saberia precisar as tarefas daquele dia terrível. A igreja, os preparativos. As índias lavando e vestindo o corpo da mãe, o caixão simples com flores.

 

   Velara a mãe de forma apropriada, um dia e noite inteiros, até a manhã seguite ao falecimento. Estava então duas noites acordado, e parecia apenas a sombra do Cristiano que era. Apático, perfilou-se para receber os pêsames daqueles que foram prestar as últimas homenagens à Aurora.

 

- Meus pêsames, meus pêsames. Sua mãe era uma grande dama.

 

- Ela agora está no céu, com anjos...

 

- Finalmente ela descansou destas dores do mundo.

 

- Ao  menos ela encontrará seu pai no paraíso...

 

A  menção ao pai, foi como um balde de água fria que o despertou de seu autismo.  Apertou um pouco demais a mão da mulher que falara isto, encarando-a com olhos selvagens. A mulher sentiu-se assustada, e recuou, tentando soltar a mão.

 

- L-lamento, com licença...- Ela parecia uma presa desesperada, sob as patas de um animal perigoso. Cristiano se apercebeu, e a soltou imediatamente, vexado.

 

-Perdoe-me, senhora. – Fez uma mesura galante. A mulher pareceu relaxar um pouco, aliviada:

 

- Não preocupe sua cabeça, meu jovem . Com licença.- Apesar de estar sorrindo, a mulher quase correu para longe dele. A observou ir, amargo.

 

- Gostaria de saber o que fará, meu amigo.

 

 Cristiano se virou em direção da voz. Era José Rodrigues, elegantemente trajado em um fraque negro. Abraçou o amigo.

 

- Calma. – José pôs a mão nos ombros de Cristiano.- Precisa depois pôr a cabeça sobre os ombros. Conversaremos quando todo este redemoinho acabar.

 

   Era um redemoinho, um vendaval. Uma série de imagens confusas e dolorosas, quase desconexas. Aurora possuía uma sepultura na capela, e lá foi colocada. Todos já haviam partido do funeral, mas o jovem ficou diante da pedra cimentada, olhando o vazio. Ainda aguardava da mãe o que fazer, agora que sua vida tomara um rumo inesperado. Mas a pedra nada respondia.

 

 Então, como era necessário, ele voltou para a casa silenciosa e vazia.

 

 

 

 

   Alguns dias se passaram, nos quais o  jovem tentou pôr as coisas em ordem. Recebera uma licença de dois dias após o funeral da mãe, e estes se escoaram como areia entre os dedos.

 

   Na tarde do segundo dia, josé Rodrigues foi ter com ele. O amigo lhe ofereceu dinheiro, o que Cristiano recusou veementemente. Possuía o suficiente para chegar na casa da tia e subsistir por um mês. Não seria um peso morto para ninguém.

 

   José aprovou sua atitude, até invejando um pouco a liberdade do amigo mais moço. Ele era rico, mas teria de ficar para o resto da vida ali, em Caruru, cuidando das terras da família. Cristiano, no entanto, que aventuras não teria, na capital?    

 

   A dor alcançou Cristiano uma semana depois. Entrando no quarto de Aurora e mexendo no armário, juntando pertences  para doar aos pobres, se pegou aspirando o perfume tênue que impregnava o tecido do vestidinho azul de todos os dias da mãe. Ali, sentado ao chão, chorou copiosamente por ela,  por todo o sofrimento, e pelo fim de sua infância e adolescência. A noite o encontrou encolhido, abraçado ao vestido, exausto e vazio.

 

   Cristiano guardara o endereço da tia Irene em Recife, e considerava seriamente a ida. Possuía o dinheiro para uma viagem, iria de carroça com comerciantes locais. Lá chegando, ficaria com a tia apenas o tempo de conseguir algum trabalho.

 

   Em dois meses, estava tudo acertado. Enviara uma carta à tia em Recife, explicando a situação (carta esta que certamente não chegaria a tempo). Pediu demissão do trabalho no consultório, e o médico de bom grado lhe cedeu uma carta de recomendação assinada de próprio punho.

 

   No dia da partida, Cristiano juntou seus pertences. A  casa era alugada, então apenas a entregou ao proprietário. Uma mala pequena era tudo o que possuía e precisava. Algo para levar suas poucas roupas,  os preciosos cadernos e livros que guardava cuidadosamente. Em Recife, poderia conseguir um trabalho e ver as famosas livrarias que lá havia. A ideia o animou bastante, apesar do sofrimento do luto. Prometeu a si mesmo de vez em quando voltar para Caruru , visitar o amigo José e o túmulo da mãe.  

 

   No dia da viagem, lá estavam Iracy e José Rodrigues, para dizer adeus. O amigo mais velho o abraçou fortemente:

 

- Não hesites em me procurar, em caso de problemas, Cristiano. Sou seu amigo pela vida inteira!

 

Cristiano sentiu lágrimas aflorando aos olhos. Ia rumo ao desconhecido de uma cidade bem maior, sozinho. Mas ainda tinha amigos de verdade em Caruru.

 

-Nunca deixarei de escrever-te, José.- Afiançou.- És meu amigo do coração, meu irmão!

 

Iracy o abraçou com carinho. A velhinha pressentia algo ruim por vir, mas não preocupou o rapaz em sua despedida. O destino era algo bem caprichoso. E lá estava indo Cristiano, para a cidade onde o pai residia.

 

- Sei que tua mãe pediu, Cristiano.- Ela o afastou um pouco do abraço, olhando-o dentro dos olhos.- Mas desta vez, eu também peço. Não vá ao encontro de teu pai. Isto trará apenas dor e lágrimas..

 

   Um pouco surpreso, Cristiano sustentou o olhar da indígena:

 

- Uma promessa feita no leito de morte de minha mãe, que reitero para a senhora, D. Iracy: Jamais procurarei meu pai nesta vida.

 

   O rapaz colocou a pequena maleta na parte de trás da carroça e subiu junto ao cocheiro na frente. Então partiu, acenando alegremente.

 

   José Rodrigues acenou bastante entusiasmado, até não mais conseguir divisar a figura do amigo na carroça. Então, voltou-se para Iracy, com cara de espanto:

 

- Oxe, mas o pai de Cristiano não está morto, não?

 

A indígena abaixou a cabeça, guardando os pensamentos apenas para si.

 

 

 

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